10/12/2016

quero tirar isso de ti

desencana, querida
que assim é a vida
que culpa nós temos
de viver o querer?
um deus obsceno
que renega a vontade
um triste senhor, aliás,
onde é que ele está?
alguém sabe?

deixou aqui
um nazareno
pregado na cruz
cheio de sangue
e sofrimento

eu lamento,
mas nós
estamos vivos

sentenciou:

- tirem o quadro, o prego fica onde está.

09/12/2016

#1


todo dia
na mesma esquina
um índio descalço
vende barcos de papel

eu olho pra você
quase sensibilizado
com essa sua comoção
que dura mais ou menos
uns 4 segundos

saudade


foi embora só da minha casa

06/02/2015

a ship

when we started to build a ship
I always thought about the sea
never about the ship
the whole ocean open wide
for you and me and sky

when we started to build a ship

I painted it red and white and blue
maybe yellow too -
and I thought about us
holdin’ each other
over waves and sea storms

we can handle this, right?


when our ship was almost done

I felt happy as I could be
- now we could face the sea - said I
but there were waves and storms
scary as shit, we agreed and hit

then we got into the sea
wondering we were finally free
there were no roads, no maps
no fences nor signs -
but
someway 
I felt weird -
from somewhere in my head
came to me this little notion
that we're still chained
now by the ocean
can't you see?

yes, robert

sometimes
the guilty undertaker sighs
and that's all.
there's nothin' to do about it
there's no sense of time anymore
or feel
or will
it's too damn late - 
the truth is I've got nothing but these undertakers sighs
and
honestly, I fake I don't care
cause I can't really listen to it,
but
these guys
who are used to deal with dead people
I can't trust them 
- too much silence -
they fuckin' know how to deal with silence
did you realize that?
may that's why I can't deal with them
I can't deal with silence either way
I think its fake. bullshit.
but sometimes
the guilty undertaker sighs
and that's all.

20/01/2015

O cheiro

Já fazia uns trinta minutos que eu estava atrás daquele caminhão de galinhas. Nenhum ponto de ultrapassagem, um porre de um engarrafamento intenso e uma estrada nada amigável no interior da província. O cheiro de merda era terrível. Esse cheiro é facilmente identificável pra quem nasceu no interior, a gente aprende desde cedo distinguir a espécie do bicho pelo cheiro da merda. Passado alguns minutos da jornada, tenho que admitir que, de certa forma, o cheiro foi amenizando e já não era tão forte. Talvez num movimento natural eu tivesse me habituado, não sei. De qualquer maneira, minha prioridade era o tempo, a urgência dos segundos em cada quilômetro rodado. Aonde quer que eu vá, eu quero chegar logo. E tão logo o cheiro tinha sumido, decidi assumir alguns riscos e forçar a ultrapassagem. Eu não queria me habituar àquilo e sabia que o risco era a única solução possível ali. Há os que nunca ultrapassam.

Ultrapassei em faixa dupla perto de uma ponte, um por um dos habituados - até o derradeiro caminhão ter virado imagem no retrovisor do meu carro popular. Já livre do cheiro insuportável, pensei na rotina do motorista do caminhão, no seu cotidiano e sua relação com o cheiro da merda, se ele realmente sentia aquilo o dia inteiro, se de alguma forma isso ainda o incomodava ou qual teria sido o processo físico de adaptação pelo qual ele supostamente teria passado. Quando passei, ele buzinou duas vezes - como se me cumprimentasse.

De boné azul, parecia um poeta.

13/01/2015

solidarité

a Nigéria chora
e eu acho que o Haiti também.
indignada, a sociedade toma as ruas
em prol da liberdade de expressão -
pelo menos,
é o que diz na televisão daqui -
há a indignação dos filósofos
das redes sociais
e de todos os jornalistas
no México e no Brasil.
já sobre a Namíbia,
eu nada sei, mas
deve haver comoção por lá
porque todo mundo se mobiliza rápido
quando o atentado
é europeu -

o atrasado
sou eu.


14/03/2014

das greves


outra greve estourou 
em uma grande capital do país
tenho pressa em declarar meu
apoio ao trabalhador:
se não pela causa, pela dor, 
que nossa identificação se dá no braço,
no cansaço
de ter um peito oprimido
por uma força superior
que não cogita negociar
nem fazer concessão -
sim, é ruim, mas 
de ameaça em ameaça,
eu sigo assim:
meu coração funcionário
de um patrão imaginário
me faz minoria
dentro de mim

05/08/2013

só isso

tem dias que me sinto só
independente da quantidade de gente 
que está ao meu lado ou meu redor.
simplesmente acordo assim:
desinteressado do mundo,
n'um estado profundo 
de abnegação - 
é engraçado porque quanto mais só me sinto,
mais tenho a impressão de que há uma multidão 
de gente sentindo a mesma coisa. ou seja,
talvez não estejamos realmente sós, mas sim
- só - distantes uns dos outros.
e é nesse instante que sinto
que devo sentar e escrever isso:

um manifesto discreto
entre o silêncio
e o grito

20/06/2013

meu amigo Belchior

talvez eu dê o fora,
talvez eu vá embora,
deixe meu carro n’um estacionamento qualquer e vá percorrer os submundos do continente americano. sabe,
tenho escutado teus discos e gostaria de lhe dizer, meu amigo:
eu também tenho medo. o tempo também mexe comigo.
suponho que você não dorme a noite,
que fuma um cigarro atrás do outro em pequenos surtos de ansiedade -
o que deve deixar o ambiente terrivelmente pesado
para um poeta fugitivo. 
eu já não fumo, Belchior. 
tenho agüentado no peito a escuridão da madrugada, ventiladores, passos pesados, a sinfonia de automóveis cansados,  
o silêncio...
acho que o silêncio é uma grande mentira e só tenho esperança no cheiro da pele de quem amo.  
ela tem cheiro de primavera, Belchior,
um sorriso no olhos que você nem imagina.
e eu...bem, 
eu sinto que você está fugindo, mas 
queria te dizer:
ninguém foge do tempo, Belchior.
ninguém.

24/04/2013

telespectador

uma rebelião
no canal cinco:
dois jovens mortos
e um apresentador urrando coisas
sobre vagabundos irrecuperáveis -
ele grita alto,
mesmo no microfone.
parece estar bem alimentado,
gordo de ódio,
aponta o dedo para 
a câmera - um imperador
de merda nenhuma
cuspindo certezas,
clamando punições,
acompanhado por um sorriso sujo
no canto da boca úmida.
não sei, mas
tenho a impressão que 
ele é assistido por uma legião
de sádicos 
e que a desgraça alheia
conforta
esse porco

02/11/2012

o rapaz


acordou cedo
n’um quarto de hotel
de algum lugar do mundo -
tomou banho,
escovou os dentes,
cuspiu na pia
a noite anterior,
coisa que fazia
religiosamente -
repetia
os movimentos de sempre:
mesmos horários,
dias diferentes –
foi quando de repente
alguma coisa aconteceu
n'uma questão de segundo,
um movimento milimétrico do olho
que o levou até aquele cabelo branco,
um fio só -
em seguida, como n'um plano sequência,
veio a barba enviesada, 
paredes, chão...
enfim, o absurdo.
percebeu que não tinha nada
além de dois buracos
embaixo dos olhos
e
voltou a dormir

09/09/2012

o tímido (falando sozinho)

hã, assim,
não sei bem, mas
sinto que alguém
pensa igual a mim 
em silêncio

30/06/2012

esse cara

quando fica só
encontra alguém
calado, parecido com ele
cansado, resignado,
orgulhoso do vazio
de uma alma amarela.
pensa que engana
não, n'um sorriso falso
denuncia a mentira
de uma alegria forçada
que ninguém vê
que ninguém viu -
mas é sorriso
diria o narciso
é, pode até ser
ou um gesto mecânico
inconsciente
fingindo segurança:
ele está sozinho
não são duas pessoas
-->

12/06/2012

não tem sentido

parabéns 
por não perder
a inocência

31/05/2012

essa correria aí

-->
onde você vai
com essa agonia, rapaz?
chutando pedra na rua
suando além da conta -
tira a mão do bolso e
sorria, rapaz.
mesmo forçadamente
mesmo descontente
devolve a pedra na história
que você não é obrigado
a carregar 500 anos nas costas -
acorda, rapaz, olha em volta.
toda essa gente correndo,
trotando, buzinando, movendo,
eles vão chegar também, rapaz,
no mesmo lugar que você
lá, onde tudo vai ficar calmo
dentro de outras
pequenas repetições
convenientes

29/05/2012

perdoe-os

quão entristecida
fica a velha costureira
ao vê-los passar enfileirados
cada qual com seus tecidos
das mais variadas cores -
e brigam, berram asneiras,
homens tão diocesanos
não sabem que suas bandeiras
são feitas dos mesmos panos]
enquanto um grita: salve o prefeito!
outro pedia sua morte
um terceiro afirma ser deus
sem qualquer tipo de sorte;
ninguém escutava ninguém
era isso que afligia a costureira
pois gritavam de uma maneira
que não se entendia um vintém
do que eles queriam dizer
ou que queriam falar.
talvez, minha senhora,
eles não queiram dizer nada
só gritar um pouco
um mais alto
que o outro

16/04/2012

a casa

todo dia
uma casa é derrubada;
pedaços de concreto
vão
ferro retorcido
e etc's...
mas toda vez
que uma casa é derrubada
independente
da lágrima derramada
por cada morador
outra terá de ser construída
nova
até o dia
que ela será derrubada
outra vez
por outro alguém

mais pedaços de concreto
vão
ferro retorcido
e etc's...
-->

20/03/2012

Um bom homem

meu amigo
n'uma caixa de madeira
eternamente dormindo
que cena.
jazia sorrindo,
o que deve ser dito:
era tarefa costumeira
- rotina -
de um coração honesto,
bonito.
funesto? talvez.
não sei. não.
entendo o recado,
os silêncios
desse bom homem
nos avisam:
- vivam!

19/02/2012

O domingo, parte III

calam os grilos
as cigarras
os mosquitos
nem você
está falando

17/02/2012

2:35 a.m

isso é o que eu posso escrever.
ademais, sou o único que posso ler, veja -
outros podem pensar que o passado
guia alguma coisa aqui - não
nós estamos nus
em frente palavras
vai de cada consciência -
quando eu não tenho sono
aprendo a escrever
e acho que vou escrevendo
o que provavelmente possa ser lido
por alguém como eu
n'uma noite como essa

15/02/2012

quadro 1

foi quando entramos na cozinha
que a cena pareceu se repetir
garfos, facas, talheres
hermeticamente posicionados
em gavetas e espaços -
copos e taças também estavam lá
nos mesmos lugares de sempre
foi quando por algum motivo,
num instante,
o mundo sussurou
aos nossos ouvidos
que estávamos sós
- nós dois -
no meio da cozinha
sentindo algo parecido
respirando o mesmo ar.
você tentou disfarçar oferecendo um copo
de bebida -
eu via seus lábios dançando
aceitei
sem hesitar.

31/01/2012

a tired fan

the fan continues to run
poor old machine
said I
wandering about this guy
who have to run all day
around himself -
and looking at the roof
I pray
on my knees
for a blackout
for his peace
he can't control
electricity and things  
that's why I asked god
don't know if it's a sin
if it's a jest
if electricity must win
but you - father of universe -
don't you think that he deserves
a rest?

13/09/2011

manifesto contra a citação

não me amparo
em palavra de poeta
artista, compositor,
filósofo ou romancista:
eu só sinto o que eu sinto
- cada um com sua dor -
e se você sente
o que eles sentem
por que não trata
de dizer, abrir o peito,
que não deve ser defeito
nem libertinagem -
vai precisar, sim,
de uma gota de coragem
- ó mundo cruel -
uma caneta
um papel...

- tem peito?

01/09/2011

ninguém morreu

-->
sabe,
eu vou guardar
essa pedrinha
na gaveta
não por vingança
- longe de mim!
quero é comê-la
quebrar meus dentes
e desdentado
sorrir sangrando
só pra você

29/08/2011

Erramos, parte 35

-->
no dia em que eu vi você
comprei uma árvore
da cor dos teus cabelos
pra colocar na sacada, perto da janela;
o perfume era outro
- obviamente -
tudo era diferente.
dei nome pra planta
fiz uma marca em um galho qualquer
parecida com a que você tem no braço
e chamei todo mundo pra ver:
- que eles contem, espalhem - porém -
hoje, pensando bem,
quão ridículo a gente é
ontem, hein?

16/08/2011

acabou

-->
onde você vai estar
quando deus aparecer
e resolver por si negar
nosso direito de viver
onde você vai estar
quando a luz se acender
e alguma coisa espacial
fazer honras pra descer
onde você vai estar?
eu vou me perguntar
quando de fato acontecer
onde estará ela agora
o que será que ela vai fazer
e se no fim de tudo
alguma coisa estranha
ou energia ou vai saber
optar por um de nós
espero que seja eu
não deu



Madrugada

-->
sempre foi durante a madrugada
que as coisas aconteceram;
mataram uma magistrada,
coisa de grupos paramilitares,
que ninguém nunca sabe a verdade.
os jornais usam a condicional;
óbvio que eu estava sem o que fazer
quando zapeava e dei de cara com o Boris Casoy,
pior: ainda tive de concordar com a indignação
do homem. ele tem duas orelhas pontiagudas,
uma boca que fala sobre a dureza da lei
e a burrice de certos círculos intelectualóides
na verdade, não estou nem aí pra ele.
eu realmente não tinha nada melhor pra fazer.
depois, veio aquele velho papo do poder de consumo
da nova classe média, do aumento do poder aquisitivo,
pessoas comprando em uma rua qualquer, um economista almofadinha
citava alguns jargões sobre números e gráficos.
ok, vencemos, eu pensei.  foi quando o sono veio,
meio zonzo, ainda ouvi barulhos e alguém (falando muito alto)
sobre refrigeradores de 699 reais à vista.
depois, ainda mais tarde, fiquei pensando sobre o dia que passou,
sobre a repetição das coisas, sobre o Boris Casoy.
sempre foi de madrugada (lembra?)
que as coisas aconteceram
nela que mataram uma magistrada
coisa de grupos paramilitares
quase ninguém nunca sabe a verdade.

15/08/2011

para Daniel Johnston

-->
um artista
caminhava sozinho
dessa vez não chovia
fazia um sol primaveril
abelhas, flores e árvores
essas coisas todas que
podemos associar com a vida,
coisas pequenas da natureza.
eu já ouvi do Daniel histórias de artistas
que envelheciam, ele falou
que alguns procuravam a fama e a glória
e que outros não eram tão ousados,
mas que todos caminhavam sozinhos
apreciando a cena, sem preocupação,
enquanto os outros (você sabe quem) tentavam
justificar aquelas situações
procurando a luz do do sol
pela televisão

11/08/2011

Aquele homem

-->
todo dia, na mesma praça,
tem um homem sentado
no mesmo banco.
ele parece um jesus sujo
barbado e mal tratado
pelo trago, pela vida,
ninguém sabe sua história.
nada.
mas aquele pescoço inclinado
me força a lembrar a posição
do pescoço do homem na cruz,
não é só a barba e o cabelo,
e fica lá sentado
permanentemente
com alguns discípulos
mais jovens e bêbados
da mesma forma.
também notei que eles
- os discípulos -
nunca estão sentados.
têm vezes que acho
que o homem é um anjo
sinto alguma coisa estranha
quando passo por ele
um eremita cosmopolita
que lê jornais antigos
têm outras vezes
que eu só queria saber
o que ele pensa
sobre o tempo

05/08/2011

viu

quando eu sentei
pra escrever isso
eu deveria ter
uma ideia inicial
um mote, um enredo,
qualquer formato
desses que a gente lê
nas bancas de jornal
poderia abordar
uma temática social
ou alguma metáfora tola
preparada
sobre a felicidade ou o amor
e suas benesses
meu problema é esse
eu não tenho ideia
nem enredo
só uma necessidade 
estúpida
de movimentar
alguma coisa

04/08/2011

fórmula 1

não contei os carros 
eram de diferentes cores
davam diversas voltas
no mesmo circuito
iam e voltavam
voltavam e iam
um barulho estridente
um cheiro de fumaça
pude observar as dezenas de espectadores
todos com perfis semelhantes
comiam e bebiam qualquer coisa
alguns deles gritavam
nomes que eu não conhecia.
e os carros de diferentes cores,
continuavam.
voltavam e iam,
iam e voltavam...

17/07/2011

Funeral

eu morri
quando você me colocou
naquela sacola plástica
talvez acreditando ingenuamente
que eu ficasse lá sempre -
afinal, já estava preso
dentro de alguma coisa
que demoraria a decompor.
lembro de você parecer
gostar daquela situação:
ria alto 
enquanto eu
morria
suponho que você não pensou
que eu fosse morrer mas, de fato, morri.
o pior: nem te vi
lembrar dos nossos corpos nus
ao ver as sacolas intactas
é plástico;
fui eu
só eu
me decompus.

14/07/2011

não

se você for suplicar
pela minha indiferença,
eu negarei, amor.
pois, seja como for,
aceito a dor.
mudo casa, mudo cor,
vendo carro, viro ator,
canto até um samba assim
de uma nota, um samba só,
sem qualquer preocupação,
sem nenhuma afinação
que nesse nó
que me encontrei
onde até samba eu já cantei, eu ainda
nem bebi, eu nem bebi.
- uma dose, por favor.
dupla, se puder, garçom, e
o cinzeiro de antemão.
pois, veja, eu já me submeti
dei o que pude dar e vi
que não é do meu feitio
nesse peito arredio
tanta bala de festim

pra encerrar:
eu aceito o fim,
mas se você pedir pra mim
a indiferença, sim,
eu lhe negarei, amor