10/12/2016

quero tirar isso de ti

desencana, querida
que assim é a vida
que culpa nós temos
de viver o querer?
um deus obsceno
que renega a vontade
um triste senhor, aliás,
onde é que ele está?
alguém sabe?

deixou aqui
um nazareno
pregado na cruz
cheio de sangue
e sofrimento

eu lamento,
mas nós
estamos vivos

sentenciou:

- tirem o quadro, o prego fica onde está.

09/12/2016

#1


todo dia
na mesma esquina
um índio descalço
vende barcos de papel

eu olho pra você
quase sensibilizado
com essa sua comoção
que dura mais ou menos
uns 4 segundos

saudade


você foi embora da minha casa
e só

que título ridículo


que formato defasado,
burro e anti-audiovisual
onde está o movimento?
cadê o tridimensional?

nem um traço abstrato
sem um fundo musical
falta interatividade
com a mídia social.

...cansamos.
foram oito linhas,
onze, agora.

21/06/2016

tocha olímpica (estatísticas)

mais uma morte
para promover um dos brasis
que ninguém conhece.
carregaram uma tocha engraçada 
entre barcos, rios e ribeirinhos
índios, árvores, passarinhos
lá pro meio da amazônia:
fogo olímpico, descrevia a legenda.
no local, uma dúzia de soldados,
quatro ou cinco autoridades,
e duas onças acorrentadas 
para a foto -
uma não gostou do circo;
foram dois tiros
um de tranquilizante e
outro de fuzil.
mais uma morte.
quem defendia o quê,
brasil?



22/03/2016

tinha um leão

tinha um leão
quando eu liguei a televisão. 
a trilha crescia tensa
enquanto o narrador detalhava
- em off -
a musculatura do felino e
o poder de ataque do animal;
de cara, p’ra mim,
o bicho parecia ruim
naquele contexto audiovisual;
caçada ou perseguição?
a presa que agonizava,
o sangue que dela jorrava,
o que fazia eu
que ainda não perguntava:
- era fome ou raiva?
foi quando, então,
a trilha parou.
o narrador ficou mudo.
e n'um momento divino
ou vespertino
a minha ficha caiu...
lá, no seus habitats,
ele são só bichos
estão grunhindo 
por natureza, viu?

17/03/2016

uma nuvem

tem uma nuvem 
que não parece estar vindo
nem tampouco parece ter ido
quando ela aparece sempre me parece
que ela sempre esteve aí -
sim, tem mesmo uma nuvem por aí
carregada, gestada e parida
na previsão do tempo,
na construção do vento,
nuvem que não beira o horizonte,
que é matéria e inconsciente,
ao mesmo tempo que fica acima
fica também embaixo da gente -
o temporal faz seu espaço.
tem, sim, uma nuvem
de chuva amarga molhando o piso
de muita gente seca;
ela aparece de quando em quando
deixando o mesmo estrago
sob mando de força divina
regando sempre
o mesmo pote vazio
quase esquecido,
furado, quadrado,
que você tem guardado
aí dentro do peito.
é sem tempo -
acorda, 
assopra,
já está chovendo bile 
e não se pode
esperar vento.
tem uma nuvem por aí.



06/02/2015

a ship

when we started to build a ship
I always thought about the sea
never about the ship
the whole ocean open wide
for you and me and sky

when we started to build a ship

I painted it red and white and blue
maybe yellow too -
and I thought about us
holdin’ each other
over waves and sea storms

we can handle this, right?


when our ship was almost done

I felt happy as I could be
- now we could face the sea - said I
but there were waves and storms
scary as shit, we agreed and hit

then we got into the sea
wondering we were finally free
there were no roads, no maps
no fences nor signs -
but
someway 
I felt weird -
from somewhere in my head
came to me this little notion
that we're still chained
now by the ocean
can't you see?

yes, robert

sometimes
the guilty undertaker sighs
and that's all.
there's nothin' to do about it
there's no sense of time anymore
or feel
or will
it's too damn late - 
the truth is I've got nothing but these undertakers sighs
and
honestly, I fake I don't care
cause I can't really listen to it,
but
these guys
who are used to deal with dead people
I can't trust them 
- too much silence -
they fuckin' know how to deal with silence
did you realize that?
may that's why I can't deal with them
I can't deal with silence either way
I think its fake. bullshit.
but sometimes
the guilty undertaker sighs
and that's all.

20/01/2015

O cheiro

Já fazia uns trinta minutos que eu estava atrás daquele caminhão de galinhas. Nenhum ponto de ultrapassagem, um porre de um engarrafamento intenso e uma estrada nada amigável no interior da província. O cheiro de merda era terrível. Esse cheiro é facilmente identificável pra quem nasceu no interior, a gente aprende desde cedo distinguir a espécie do bicho pelo cheiro da merda. Passado alguns minutos da jornada, tenho que admitir que, de certa forma, o cheiro foi amenizando e já não era tão forte. Talvez num movimento natural eu tivesse me habituado, não sei. De qualquer maneira, minha prioridade era o tempo, a urgência dos segundos em cada quilômetro rodado. Aonde quer que eu vá, eu quero chegar logo. E tão logo o cheiro tinha sumido, decidi assumir alguns riscos e forçar a ultrapassagem. Eu não queria me habituar àquilo e sabia que o risco era a única solução possível ali. Há os que nunca ultrapassam.

Ultrapassei em faixa dupla perto de uma ponte, um por um dos habituados - até o derradeiro caminhão ter virado imagem no retrovisor do meu carro popular. Já livre do cheiro insuportável, pensei na rotina do motorista do caminhão, no seu cotidiano e sua relação com o cheiro da merda, se ele realmente sentia aquilo o dia inteiro, se de alguma forma isso ainda o incomodava ou qual teria sido o processo físico de adaptação pelo qual ele supostamente teria passado. Quando passei, ele buzinou duas vezes - como se me cumprimentasse.

De boné azul, parecia um poeta.

13/01/2015

solidarité

a Nigéria chora
e eu acho que o Haiti também.
indignada, a sociedade toma as ruas
em prol da liberdade de expressão -
pelo menos,
é o que diz na televisão daqui -
há a indignação dos filósofos
das redes sociais
e de todos os jornalistas
no México e no Brasil.
já sobre a Namíbia,
eu nada sei, mas
deve haver comoção por lá
porque todo mundo se mobiliza rápido
quando o atentado
é europeu -

o atrasado
sou eu.


14/03/2014

das greves


outra greve estourou 
em uma grande capital do país
tenho pressa em declarar meu
apoio ao trabalhador:
se não pela causa, pela dor, 
que nossa identificação se dá no braço,
no cansaço
de ter um peito oprimido
por uma força superior
que não cogita negociar
nem fazer concessão -
sim, é ruim, mas 
de ameaça em ameaça,
eu sigo assim:
meu coração funcionário
de um patrão imaginário
me faz minoria
dentro de mim

05/08/2013

só isso

tem dias que me sinto só
independente da quantidade de gente 
que está ao meu lado ou meu redor.
simplesmente acordo assim:
desinteressado do mundo,
n'um estado profundo 
de abnegação - 
é engraçado porque quanto mais só me sinto,
mais tenho a impressão de que há uma multidão 
de gente sentindo a mesma coisa. ou seja,
talvez não estejamos realmente sós, mas sim
- só - distantes uns dos outros.
e é nesse instante que sinto
que devo sentar e escrever isso:

um manifesto discreto
entre o silêncio
e o grito

20/06/2013

meu amigo Belchior

talvez eu dê o fora,
talvez eu vá embora,
deixe meu carro n’um estacionamento qualquer
e vá percorrer os submundos do continente;
tenho escutado teus discos e gostaria de lhe dizer, amigo:
eu também tenho medo. o tempo também mexe comigo.
suponho que você não dorme a noite,
que fuma incontáveis cigarros em surtos de ansiedade -
o que deve deixar o ambiente terrivelmente pesado
para um poeta fugitivo. 
eu já não fumo mais, Belchior. 
tenho agüentado no peito a escuridão da madrugada, 
ventiladores, passos pesados, a sinfonia de automóveis cansados,  
o silêncio...
acho que o silêncio é uma grande mentira e
só tenho esperança no cheiro da pele de quem amo.  
ela tem cheiro de primavera, Belchior,
um sorriso no olhos que você nem imagina.
e eu...bem, eu sinto que você está fugindo, mas 
queria te dizer:
ninguém foge do tempo, Belchior.
ninguém.

24/04/2013

telespectador

uma rebelião
no canal cinco:
dois jovens mortos
e um apresentador urrando coisas
sobre vagabundos irrecuperáveis -
ele grita alto,
mesmo no microfone.
parece estar bem alimentado,
gordo de ódio,
aponta o dedo para 
a câmera - um imperador
de merda nenhuma
cuspindo certezas,
clamando punições,
acompanhado por um sorriso sujo
no canto da boca úmida.
não sei, mas
tenho a impressão que 
ele é assistido por uma legião
de sádicos 
e que a desgraça alheia
conforta
esse porco

18/04/2013

gracias

passei um tempo fora
andando sozinho
correndo o continente
procurando história,
gente -
sem titubear,
deixei tudo pra trás
tudo passar
e fui embora, passarinho.
eu não guardo mágoa
não guardo água
não guardo nada.
meu peito é um buraco
aberto. não tenho medo
de ser ridículo.
o que me amedronta
- mesmo -
é nunca sê-lo.
me abraço no tempo
não faço projeção,
mas isso foi ontem.
depois que você apareceu
tudo me pareceu tão
desimportante...
sabe, tenho a impressão
que te amo faz tempo -
antes mesmo
de saber
que você existia.





02/11/2012

o rapaz


acordou cedo
n’um quarto de hotel
de algum lugar do mundo -
tomou banho,
escovou os dentes,
cuspiu na pia
a noite anterior,
coisa que fazia
religiosamente -
repetia
os movimentos de sempre:
mesmos horários,
dias diferentes –
foi quando de repente
alguma coisa aconteceu
n'uma questão de segundo,
um movimento milimétrico do olho
que o levou até aquele cabelo branco,
um fio só -
em seguida, como n'um plano sequência,
veio a barba enviesada, 
paredes, chão...
enfim, o absurdo.
percebeu que não tinha nada
além de dois buracos
embaixo dos olhos
e
voltou a dormir

09/09/2012

o tímido (falando sozinho)

hã, assim,
não sei bem, mas
sinto que alguém
pensa igual a mim 
em silêncio

30/06/2012

esse cara

quando fica só
encontra alguém
calado, parecido com ele
cansado, resignado,
orgulhoso do vazio
de uma alma amarela.
pensa que engana
não, n'um sorriso falso
denuncia a mentira
de uma alegria forçada
que ninguém vê
que ninguém viu -
mas é sorriso
diria o narciso
é, pode até ser
ou um gesto mecânico
inconsciente
fingindo segurança:
ele está sozinho
não são duas pessoas
-->

12/06/2012

não tem sentido

-->
era o que estava escrito
no título do texto.
isso não impedia
de fazer você procurar
uma associação simbólica,
a tal justificativa razoável
para sua interpretação. 
porque você tem fome, 
e quem tem fome, come.
- precisa -
há uma necessidade aí:
orgânica, física.
a mesa não serve a dúvida
- enjoativa -
serve a certeza.
há uma necessidade aí -

parabéns 
por não perder
a inocência

31/05/2012

essa correria aí

-->
onde você vai
com essa agonia, rapaz?
chutando pedra na rua
suando além da conta -
tira a mão do bolso e
sorria, rapaz.
mesmo forçadamente
mesmo descontente
devolve a pedra na história
que você não é obrigado
a carregar 500 anos nas costas -
acorda, rapaz, olha em volta.
toda essa gente correndo,
trotando, buzinando, movendo,
eles vão chegar também, rapaz,
no mesmo lugar que você
lá, onde tudo vai ficar calmo
dentro de outras
pequenas repetições
convenientes

29/05/2012

perdoe-os

quão entristecida
fica a velha costureira
ao vê-los passar enfileirados
cada qual com seus tecidos
das mais variadas cores -
e brigam, berram asneiras,
homens tão diocesanos
não sabem que suas bandeiras
são feitas dos mesmos panos]
enquanto um grita: salve o prefeito!
outro pedia sua morte
um terceiro afirma ser deus
sem qualquer tipo de sorte;
ninguém escutava ninguém
era isso que afligia a costureira
pois gritavam de uma maneira
que não se entendia um vintém
do que eles queriam dizer
ou que queriam falar.
talvez, minha senhora,
eles não queiram dizer nada
só gritar um pouco
um mais alto
que o outro

16/04/2012

a casa

todo dia
uma casa é derrubada;
pedaços de concreto
vão
ferro retorcido
e etc's...
mas toda vez
que uma casa é derrubada
independente
da lágrima derramada
por cada morador
outra terá de ser construída
nova
até o dia
que ela será derrubada
outra vez
por outro alguém

mais pedaços de concreto
vão
ferro retorcido
e etc's...
-->

20/03/2012

Um bom homem

meu amigo
n'uma caixa de madeira
eternamente dormindo
que cena.
jazia sorrindo,
o que deve ser dito:
era tarefa costumeira
- rotina -
de um coração honesto,
bonito.
funesto? talvez.
não sei. não.
entendo o recado,
os silêncios
desse bom homem
nos avisam:
- vivam!

19/02/2012

O domingo, parte III

-->
domingo
encaro o desafio
de uma noite solitária:
a cidade está em silêncio
fora as folhas e o vento
que, em constante movimento,
tornam o ambiente agradável,
acessível;
sobram grilos e cigarras, insistentes,
renitentes. eu admito complacência
com essa sinfonia desorganizada
de insetos engraçados e cantores,
suponho ser algum ritual natural
imagino um musical:
ternos, cartolas, bengalas - 
só n'uma livre associação
penso em buzinas
- aí louvo os grilos - 
nego o ar condicionado
que é pra ficar respirado
livremente -
a janela está sempre aberta, pois
que entrem os mosquitos,
mesmo não convidados,
eu estou no meio do mato
e sou minoria, suguem
o que julgarem necessário.
aí, n'um instante,
o mundo parece diferente
um silêncio mágico
coisa de milésimo de segundo
faz tudo parecer um sonho
calam os grilos
as cigarras
os mosquitos
nem você
está falando

17/02/2012

2:35 a.m

isso é o que eu posso escrever.
ademais, sou o único que posso ler, veja -
outros podem pensar que o passado
guia alguma coisa aqui - não
nós estamos nus
em frente palavras
vai de cada consciência -
quando eu não tenho sono
aprendo a escrever
e acho que vou escrevendo
o que provavelmente possa ser lido
por alguém como eu
n'uma noite como essa

15/02/2012

quadro 1

foi quando entramos na cozinha
que a cena pareceu se repetir:
garfos, facas, talheres
hermeticamente posicionados
em seus pequenos mundos -
copos e taças também estavam lá
nos mesmos lugares de sempre.
foi aí que, por algum motivo,
naquele derradeiro instante,
o mundo sussurou
aos nossos ouvidos
que estávamos sós
- nós dois -
no meio da cozinha
sentindo algo parecido
respirando o mesmo ar.
você tentou disfarçar oferecendo um copo
de bebida -
eu via seus lábios dançando;
aceitei,
sem hesitar.

31/01/2012

a tired fan

the fan continues to run
poor old machine
said I
wandering about this guy
who have to run all day
around himself -
and looking at the roof
I pray
on my knees
for a blackout
for his peace
he can't control
electricity and things  
that's why I asked god
don't know if it's a sin
if it's a jest
if electricity must win
but you - father of universe -
don't you think that he deserves
a rest?

07/12/2011

parou (300 páginas poupadas)

eu vou fazer você
ler algo improdutivo
sem nenhum motivo
e você vai olhar
o relógio ou celular
calcular o tempo 
perdido
em oito ou nove linhas
- que contei de cabeça

08/10/2011

deus (Bar Abbas)

ando meio chateado,
gastando meu tempo
no teu livro sagrado,
lendo a história
de um homem bom,
filho de carpinteiro,
que foi julgado,
maltratado, até trocado
por um assassino chamado 
Barrabás...Bar-ra-bás!
como se isso não bastasse,
faziam-no carregar:
- uma coroa de espinhos,
- uma cruz - pesadíssima -  
e dizem que aguentava chibatada
como um burro de carga - em silêncio -
enquanto o povo gritava e cuspia...
sim, foi pregado na madeira
sob um sol escaldante
- esse mesmo sol aí -
que bate na janela
de todo mundo
sem pedir permissão.
verão - não sei,
prefiro o inverno
que por um F
não vira outra coisa.

13/09/2011

manifesto contra a citação

não me amparo
em palavra de poeta
artista, compositor,
filósofo ou romancista:
eu só sinto o que eu sinto
- cada um com sua dor -
e se você sente
o que eles sentem
por que não trata
de dizer, abrir o peito,
que não deve ser defeito
nem libertinagem -
vai precisar, sim,
de uma gota de coragem
- ó mundo cruel -
uma caneta
um papel...

- tem peito?

09/09/2011

3am

chega uma hora
que tudo fica em silêncio -
é perto das três da manhã.
existem alguns pássaros
- dos quais eu não sei a espécie -
que cantam sempre
nesse mesmo horário.
o canto é um pouco triste,
não sei a companhia da noite
que me influencia,
ou a fumaça do ambiente
onde me encontro sentado
que acaba sugestionando alguma coisa.
não sei.
o fato é que eles cantam incessantemente -
são dois, consigo escutá-los perfeitamente.
pela intensidade, parece ser um casal
tendo alguma discussão sobre o relacionamento.
- quão mágicos são os pássaros,
discutem 
cantando.

01/09/2011

ninguém morreu

-->
sabe,
eu vou guardar
essa pedrinha
na gaveta
não por vingança
- longe de mim!
quero é comê-la
quebrar meus dentes
e desdentado
sorrir sangrando
só pra você