09/12/2016

33.


todo dia
na mesma esquina
um índio descalço
vende barcos de papel

eu olho pra você
quase sensibilizado
com essa sua comoção
que dura mais ou menos
uns 4 segundos

saudade


foi embora só da minha casa

21/06/2016

tocha olímpica

mais uma morte
promoven um dos brasis
que você não conhece. uns militares
carregam uma tocha engraçada 
entre barcos, rios e ribeirinhos,
índios, árvores e passarinhos
no coração da floresta amazônica:
- fogo olímpico, descreve a legenda.

no local,
uma dúzia de soldados,
quatro ou cinco autoridades e
duas onças acorrentadas 
para a foto promocional:
uma não gostou do circo.
foram dois tiros:
um tranquilizante e
outro de fuzil.
mais uma morte.
quem defendia o quê,
brasil?



22/03/2016

tinha um leão

tinha um leão
quando eu liguei a televisão. 
a trilha crescia lentamente
enquanto o narrador detalhava
- em off -
a musculatura do felino e
o poder de ataque do animal:
de cara, p’ra mim,
o bicho parecia ruim
naquele contexto audiovisual.
caçada ou perseguição?
a presa que agonizava,
o sangue que dela jorrava,
o que fazia eu
que ainda não perguntava:
- fome ou raiva, leão?
foi quando, então,
a trilha parou.
o narrador ficou mudo.
e n'um momento divino
ou vespertino
a minha ficha caiu...
lá, no seus habitats,
ele são só bichos
estão grunhindo 
por natureza, viu?

17/03/2016

uma nuvem

tem uma nuvem 
que não parece estar vindo
nem tampouco parece ter ido.
quando ela aparece, sempre me parece
que ela sempre esteve aí
carregada, gestada e parida
na previsão do tempo,
na construção do vento,
nuvem que não beira o horizonte,
que é matéria e inconsciente,
e ao mesmo tempo que fica acima
fica também embaixo da gente -
o temporal faz seu espaço.

tem, sim, uma nuvem
de chuva amarga molhando o piso
de concreto.
ela aparece de quando em quando
deixando o mesmo estrago
sob mando de força divina
regando um pote vazio
quase esquecido,
furado, quadrado,
que você tem guardado
aí dentro do peito.

é sem tempo -
acorda, 
assopra,
já está chovendo bile 

tem uma nuvem por aí.



09/12/2015

que título ridículo


que formato defasado,
burro e anti-audiovisual
onde está o movimento?
cadê o tridimensional?

nem um traço abstrato
sem um fundo musical
falta interatividade
com a mídia social.

...cansamos.
foram oito linhas,
onze, agora.

06/02/2015

a ship

when we started to build a ship
I always thought about the sea
never about the ship
the whole ocean open wide
for you and me: the sky

when we started to build a ship

I painted it red and white and blue
maybe yellow too -
and I thought about us
holdin’ each other
over waves and sea storms

when our ship was almost done
I felt as happy as I could be
- now we could face the sea - said I
but there were waves and storms
scary as shit, we agreed and hit

then we got into the sea
wondering we were finally free
no roads, no maps
no fences nor signs -
but
someway 
I felt weird -
from somewhere in my head
came to me this little notion
that we're still chained
but by the ocean

can't you see?

20/01/2015

O cheiro

Já fazia uns trinta minutos que eu andava atrás daquele caminhão de galinhas. Nenhum ponto de ultrapassagem, um porre de um engarrafamento intenso e uma estrada nada amigável no interior da província de São Pedro. O cheiro de merda era terrível. Esse cheiro é facilmente identificável pra quem nasceu no interior, a gente aprende desde cedo distinguir a espécie do bicho pelo cheiro da merda. Talvez, n'um movimento natural, eu estivesse habituado, não sei. De qualquer maneira, minha prioridade era o tempo, a urgência dos segundos em cada quilômetro rodado. Aonde quer que eu vá, eu quero chegar logo. E tão logo o cheiro tinha sumido, decidi assumir alguns riscos e forçar a ultrapassagem. Eu não queria me habituar àquilo e sabia que o risco era a única solução possível. Há os que nunca ultrapassam.

Ultrapassei em faixa dupla, perto de uma ponte, um por um dos habituados - até o derradeiro caminhão ter virado imagem no retrovisor do meu carro popular. Já livre do cheiro insuportável, pensei na rotina do motorista do caminhão, no seu cotidiano e sua relação com aquele cheiro todo. Se ele realmente sentia aquilo o dia inteiro, se de alguma forma isso ainda o incomodava ou qual teria sido o processo físico de adaptação pelo qual ele supostamente teria passado. Quando o passei, sorrindo como se me cumprimentasse, buzinou duas vezes. 

De boné azul, parecia um poeta.

13/01/2015

solidarité

a Nigéria chora e
presumo que também o Haiti 
ao menos é o que diz 
- de quando em quando -
a televisão daqui.

A bomba e o horror
o afã dos jornalistas 
das redes sociais
no México e no Brasil
- touchant

já sobre a Namíbia,
eu nada sei, mas
deve haver comoção por lá
porque todo mundo se mobiliza rápido
quando o atentado é europeu:

o atrasado
sou eu.



14/03/2014

greve


outra greve estourou 
em uma grande capital do país
tenho pressa em declarar meu
apoio ao trabalhador:
se não pela causa, pela dor, 
que nossa identificação se dá no braço,
no cansaço
de ter um peito oprimido
por uma força superior
que não cogita negociar
nem fazer concessão -
sim, é ruim, mas 
de ameaça em ameaça,
eu sigo assim:
meu coração funcionário
de um patrão imaginário
faz minoria
dentro de mim

05/08/2013

só isso

tem dias que me sinto só
independente da quantidade de gente 
que está ao meu lado ou meu redor.
simplesmente acordo assim:
desinteressado do mundo,
n'um estado profundo 
de abnegação - 
é engraçado porque quanto mais só me sinto,
mais tenho a impressão de que há uma multidão 
de gente sentindo a mesma coisa. 
ou seja, talvez não estejamos realmente sós, mas
- só - distantes uns dos outros.
e é nesse instante que sinto
que devo sentar e escrever isso:

um manifesto discreto
entre o silêncio
e o grito

24/04/2013

telespectador

uma rebelião
no canal cinco:
dois jovens mortos
e um apresentador urrando coisas
sobre vagabundos irrecuperáveis -
ele grita alto,
mesmo no microfone.
parece estar bem alimentado,
gordo de ódio,
aponta o dedo para 
a câmera - um imperador
de merda nenhuma
cuspindo certezas,
clamando punições,
acompanhado por um sorriso sujo
no canto da boca úmida.
não sei, mas
tenho a impressão que 
ele é assistido por uma legião
de sádicos 
e que a desgraça alheia
conforta
esse porco

18/04/2013

graci as

passei um tempo fora
andando sozinho
correndo o continente
procurando história, gente -
sem titubear,
deixei tudo pra trás
tudo passar
e fui embora, passarinho.
eu não guardo mágoa
não guardo água
não guardo nada.
meu peito é um buraco
aberto. não tenho medo
do ridículo.
o que me amedronta
- mesmo -
é não sê-lo.
me abraço no tempo
não faço projeção,
mas isso foi ontem.
depois que você apareceu
tudo me pareceu tão
desimportante...

sabe, tenho a impressão
que te amo faz tempo -
antes mesmo
de saber
que você existia.





09/09/2012

o tímido (falando sozinho)

hã, assim,
não sei bem, mas
sinto que alguém
pensa igual a mim 
em silêncio

30/06/2012

esse cara

quando fica só
encontra alguém
calado, parecido com ele
cansado, resignado,
orgulhoso do vazio
de alma amarela.
pensa que engana
não, n'um sorriso falso
denuncia a mentira
de uma alegria forçada
que ninguém vê
que ninguém viu -
mas é sorriso
diria o narciso
é, pode até ser
ou um gesto mecânico
inconsciente
fingindo segurança:
uma falsa conversa

está sozinho
não são duas pessoas

31/05/2012

correria

onde você vai
com essa agonia, rapaz?
chutando pedra na rua
suando além da conta -
tira a mão do bolso e
sorria, rapaz.
mesmo forçadamente
mesmo descontente
devolve essa pedra na história
que você não é obrigado
a carregar 500 anos nas costas -
acorda, rapaz, olha em volta.
toda essa gente correndo,
trotando, buzinando, movendo,
eles vão chegar também, rapaz,
no mesmo lugar que você
lá, onde tudo vai ficar calmo
dentro de outras
pequenas repetições
convenientes

29/05/2012

perdoe-os

quão entristecida
fica a velha costureira
ao vê-los passar enfileirados
cada qual com seus tecidos
das mais variadas cores -
e brigam, berram asneiras,
homens diocesanos,
não sabem que suas bandeiras
são feitas dos mesmos panos;
enquanto um grita: - salve o prefeito!
outro clama por sua morte;
um terceiro afirma ser deus
sem qualquer tipo de sorte.
ninguém escuta ninguém
é o que aflige a costureira
pois gritam de uma maneira
que não se entende um vintém
do que querem dizer ou falar.

talvez, minha senhora,
eles não queiram dizer nada
só gritar um pouco
um mais alto
que o outro

19/04/2012

cidade

ouço
o som de um martelo
batendo no tijolo
de alguma construção
aqui perto.
esqueço o resto,
não vejo movimento.
só a batida regular
- toc, toc, toc -
o tilintar,
metrônomo do cotidiano
de algum humano
de alguém
com nome e sobrenome
n'um segundo ouço, 
n'outro esqueço.
o mundo volta,
eu não termino
essa história anônima
sobre o som
de um martelo

17/02/2012

2:35 da manhã


quando eu não tenho sono
acho que vou escrevendo
o que provavelmente possa ser lido
por alguém como eu
n'uma noite como essa

04/01/2012

07/12/2011

todo mundo faz isso

eu vou fazer você
ler algo improdutivo
sem nenhum motivo
pra depois você olhar
o relógio ou celular
e calcular o tempo 
perdido
em oito ou nove linhas
- que contei de cabeça

07/11/2011

parábola

abriu um novo documento
pensando: vai dar! 
fechou e esqueceu
de salvar

25/10/2011

Tradução da transcrição do discurso de agradecimento de Leonard Cohen no recebimento do prêmio de honra pela sua contribuição literária, prêmio príncipe de astúrias.

-->
Bom, acabei de ouvir o discurso de agradecimento do maestro Leonard Cohen. Senti a obrigação de traduzi-lo para o português.

- Leonard Cohen:

- É uma grande honra estar aqui em frente a todos vocês essa noite. Talvez, como o grande maestro, Riccardo Muti, eu não estou acostumado a ficar em frente a um público sem uma orquestra atrás de mim, mas vou fazer o meu melhor como um artista solo essa noite.

Eu fiquei acordado a noite de ontem me perguntando o que eu deveria dizer para essa assembléia. Depois de ter comido todas as barras de chocolate e os amendoins do minibar, Eu rabisquei algumas palavras. Eu não acho que tenho que usá-las. Obviamente, estou profundamente emocionado por ser reconhecido pela Fundação. Mas eu venho aqui essa noite para expressar outra dimensão de gratidão; Eu acho que posso fazer isso em três ou quatro minutos.

Quando eu estava em Los Angeles, sentia um tipo de mal-estar porque eu sempre via alguma ambiguidade em um prêmio para poesias. A poesia vem de um lugar que ninguém comanda, ninguém conquista. Então, senti algo como um charlatão em aceitar um prêmio por uma atividade que eu não comando. Em outras palavras, se eu soubesse de onde vinham as boas canções, teria ido mais pra esse local.

Eu fui obrigado no meio desse calvário em ir lá e pegar minha guitarra.
Eu tenho uma guitarra Conde, que foi feita na Espanha em um grande workshop realizado na rua Gravina, número 7. Eu peguei um instrumento que adquiri há 40 anos. Tirei ele do case, o levantei, e ele pareceu estar preenchido de gás hélio de tão leve.

E coloquei ele perto do meu rosto, e coloquei meu rosto perto da roseta lindamente desenhada e inalei a fragrância da madeira viva. Nós sabemos que aquela madeira nunca morre. Eu inalei a fragrância do cedro e era tão fresca quanto no primeiro dia que comprei o instrumento. E uma voz disse pra mim, "Você é um homem velho e você nunca disse obrigado, nunca trouxe sua gratidão de volta para o solo d'onde surgiu essa fragrância. E então, eu estou aqui hoje para agradecer ao solo e a alma dessa terra que me deu tanto.

Porque eu sei que uma carteira de identidade não é um homem, uma avaliação não é um país.

Agora, vocês já sabem da minha profunda associação e confraternização com o poeta Frederico Garcia Lorca. Eu poderia dizer que, quando eu era um jovem, um adolescente, e eu estava faminto por uma voz, estudei os poetas ingleses e conhecia suas obras muito bem, e eu copiei seus estilos, mas não encontrava uma voz. Foi só quando eu li, mesmo em uma tradução, os trabalhos de Lorca que eu entendi que aquela era a voz. Não é que eu tenha copiado a sua voz; eu não me arriscaria. Mas ele me deu a permissão de encontrar uma voz, de localizar uma voz, que é encontrar um eu, um eu que não é fixo, um eu que luta pela própria existência.

Enquanto fui crescendo, eu entendi as instruções vindas daquela voz. Quais eram as instruções? As instruções eram: nunca lamentar casualmente. E se eu tiver de expressar a grande derrota inevitável que espera por todos nós, que o faça dentro dos limites  da dignidade e da beleza.

E então, eu tinha uma voz, mas não tinha um instrumento. Não tinha uma canção.

Eu era um guitarrista desinteressado. Sabia alguns acordes. Sabia só alguns deles. Eu sentava com meus amigos de colégio, bebendo e cantando canções folks e também as canções mais populares do dia, mas eu nunca, nem em mil anos imaginei que me tornaria um músico ou um cantor.

Um dia, no começo dos anos 60, eu visitava minha mãe em Montreal. A casa dela era do lado de um parque e, nesse parque, tinha uma quadra de tênis onde a garotada costumava ir pra ver aqueles belos (belas) jogadores (as) de tênis se divertindo com seu esporte. Eu vaguei de volta pelo parque que conhecia desde a infância e lá tinha um jovem tocando uma guitarra. Ele estava tocando uma guitarra flamenca e tinha uns dois ou três garotos ao redor do homem. Eu amei a maneira como ele tocou. Tinha uma coisa na forma de como ele tocava que me pegou. Era a maneira que eu queria tocar e sabia que nunca seria hábil para tal.

E, eu sentei lá com os outros que o escutavam por alguns momentos, e quando teve um silêncio, um silêncio apropriado, eu perguntei pra ele se ele poderia me ensinar a tocar. Ele era um jovem espanhol, e nós só podíamos nos comunicar no meu Françês quebrado e no Francês quebrado dele. Ele não falava inglês. E concordou em ensinar-me algumas lições de guitarra. Eu apontei para a casa da minha mãe, que poderia ser vista da quadra de tênis, e fizemos um acordo, ele definiu um preço.

Apareceu na casa de minha mãe no dia seguinte e disse, "Deixe-me ouvir você tocar algo." Eu tentei tocar alguma coisa e ele disse, "Você não sabe tocar, não é?"

Eu disse, "Não, eu não sei como tocar." Ele disse "Primeiro de tudo, deixe-me afinar sua guitarra. Está desafinada." Então, ele pegou a guitarra e afinou-a. Ele disse: "Não é uma guitarra ruim." Não era a Conde, mas a guitarra não era mesmo ruim. Então, ele devolveu ela pra mim e disse: "Agora toca".

Eu não podia tocar melhor que aquilo.

Ele disse "Deixe-me lhe mostrar alguns acordes." E ele pegou a guitarra e tirou um som daquela guitarra que eu nunca tinha ouvido. Tocou uma sequência de acordes com um trêmolo, e dizia, " Deixe-me pôr seus dedos nos trastes," e colocava meus dedos nos trastes. E dizia: "Agora, agora toca."

Foi um desastre. Ele disse, "Eu volto amanhã."

Ele voltou no dia seguinte, colocou minhas mãos na guitarra, colocou ela em meu colo da maneira que era apropriada, e comecei outra vez com aqueles seis acordes - uma progressão de seis acordes. Muitas, muitas músicas flamencas são baseadas nelas.

Eu estava um pouco melhor naquele dia. No terceiro dia - tinha melhorado, de alguma forma tinha melhorado. Eu sabia os acordes agora. E, eu sabia que mesmo que eu não coordenasse meus dedos com meu dedão para produzir aquele padrão correto do trêmolo, eu sabia os acordes, e sabia eles muito, muito bem.

No outro dia, ele não veio. Ele não veio. Eu tinha o número da sua, da sua casa em Montreal. Telefonei para descobrir o motivo da sua ausência, e alguém me disse que ele tinha se matado. Que ele tinha cometido suicídio.

Eu não sabia nada sobre aquele homem. Eu não sabia de que parte da Espanha ele tinha vindo. Eu não sabia por que ele veio até Montreal. Eu não sabia por qual motivo ele tocava lá. Eu não imaginava qual a razão dele aparecer lá naquela quadra de tênis. Eu não sabia porque ele tirou sua própria vida.

Eu fiquei extremamente triste, claro. Mas agora eu digo uma coisa que nunca disse em público. Foram aqueles seis acordes, foi aquele padrão de guitarra que foi a base de todas as minhas canções e minhas músicas. Então, agora eu começo a entender a dimensão da gratidão que tenho por esse país.

Tudo que vocês encontraram de bom no meu trabalho veio desse lugar. Tudo, tudo que vocês encontraram no meu trabalho de bom, nas minhas canções e na minha poesia foi inspirado por esse solo.

Então, eu agradeço muito pela calorosa hospitalidade que vocês sempre demonstraram pelo meu trabalho. Ele é realmente de vocês, e vocês me permitiram agora poder afixar minha assinatura no canto da página.




01/09/2011

ninguém morreu

sabe,
eu vou guardar
essa pedrinha
na gaveta.
não por vingança
- longe de mim!
quero é comê-la depois
quebrar meus dentes
e desdentado
sorrir sangrando
só pra você

16/08/2011

acabou

onde você vai estar
quando deus aparecer
e resolver por si negar
nosso direito de viver?
onde você vai estar
quando a luz se acender
e alguma coisa espacial
fazer honras pra descer?
- onde você vai estar?
eu vou me perguntar
quando de fato acontecer.
onde estará ela agora?
o que será que ela vai fazer?
e se, no fim de tudo,
alguma coisa estranha
ou energia ou vai saber
optar por um de nós
espero que seja eu
não deu



14/08/2011

15.

chovia

domingo, pontualmente nove da manhã,
um homem de fisionomia cansada
(mais ou menos uns sessenta anos)
descia do carro -
de banho tomado, cabelo penteado,
carregava um ramalhete de flores.
asseado, parecia bem. e assim, sozinho,
de coluna hereta
entrou naquele cemitério



11/07/2011

o canário

aquele canário
que cantava preso
sempre me pareceu
um pássaro idiota

se eu fosse ele 
ficaria calado
nem alpiste
mas nem obrigado
me fariam cantar
daquele jeito

só que pensando agora
não sei muito bem
se o canário era o esperto
e o idiota era...quem?

08/07/2011

saudade

uma porta aberta
do meu olho-gaiola
que deixou escapar
mais de 10 passarinhos

05/07/2011

14.

se eu soubesse desenhar
a sua boca triste
junto de meus indicadores
suavemente tocando
a pele das suas bochechas
tentando forjar em você
um sorriso forçado, esbulhado,
pois só seu desenho do rosto
quando posto sorrindo
parece um empurrãozinho
no mundo

04/07/2011

Tião Carreiro

ouvi uma moda de viola
de tião carreiro e pardinho
falava sobre a despedida
sobre seguir viagem chorando
e sobre a dúvida em saber se
quem ficava
também chorava - o que é justo -
ele dizia que faria um corte no peito
que se tivesse um lugar no mundo
que ninguém tivesse pisado
era lá, justamente lá, que ele iria ficar.
fiquei pensando sobre a dor dele:
no mínimo,
meia garrafa

28/06/2011

não

não adianta,
é uma destreza
em esnobar
que só a sutileza
do ato esnobe
é encantadora.
não pelo não
não dito -
mas pela classe
do silêncio
da reticência
taciturna
sabe,
eu agradeço:
obrigado
pelo desprezo.
quando você se calou
fui tentar dormir,
não deu. depois fui trabalhar
e tudo mais

26/06/2011

Domingo

em algum lugar se acorda cedo.
pequenos agricultores
que cuidam de bichos e plantações
discutem algo parecido com
tecnologia da produção
desenvolvimento sustentável
tá bom, louvável, mas eu
só vejo lábios em movimento.
decido fumar um cigarro
com a turma de além-porta:
eram 3 velhos, 6 botinas
que não falavam por nada
simplesmente fumavam.
entendi o momento, 
acendi o meu
fiquei quieto



24/06/2011

Que coisa

como a flor
que eu tinha
ela cuspia a água
que eu dava
eu teimava
e regava
ela cuspia
não entendia
morreu, né

20/06/2011

Vamos resumir as situações do cotidiano I

tudo bem, não tem problema,
eu vou embora,
mas se você colocar a cabeça
no seu travesseiro e lembrar
de mim, não é o fim, viu?
não é o fim.

17/06/2011

14

procuro um rascunho
em alguma gaveta
qualquer frase inacabada
perdida, esquecida,
um mísero papel
que possa ter uma continuidade
ou outro fim

mas tem dia que ela tá vazia.
penso no papel
não em mim