terça-feira, 21 de junho de 2016

tocha olímpica (estatísticas)

mais uma morte
para promover um dos brasis
que ninguém conhece.
carregaram uma tocha engraçada 
entre barcos, rios e ribeirinhos
índios, árvores, passarinhos
lá pro meio da amazônia:
fogo olímpico, descrevia a legenda.
no local, uma dúzia de soldados,
quatro ou cinco autoridades,
e duas onças acorrentadas 
para a foto -
uma não gostou do circo;
foram dois tiros
um tranquilizante,
outro de fuzil.
mais uma morte.
quem estava se defendendo,
brasil?



terça-feira, 22 de março de 2016

tinha um leão

tinha um leão
quando eu liguei a televisão. 
a trilha crescia tensa
enquanto o narrador detalhava
- em off -
a musculatura do felino e
o poder de ataque do animal;
de cara, p’ra mim,
o bicho parecia ruim
naquele contexto audiovisual;
caçada ou perseguição?
a presa que agonizava,
o sangue que dela jorrava,
o que fazia eu
que ainda não perguntava:
- era fome ou raiva, leão?
foi quando, então,
a trilha parou.
o narrador ficou mudo.
e n'um momento divino
ou vespertino
a minha ficha caiu...
lá, no seu habitat,
eles são só bichos
e estão grunhindo 
por natureza,
viu?

quinta-feira, 17 de março de 2016

uma nuvem

tem uma nuvem em movimento
que não parece estar vindo
tampouco parece ter ido
pra quem não parece estar vendo.
quando ela aparece 
sempre me parece
que ela esteve sempre aí-
sim, tem mesmo uma nuvem
carregada, gestada e parida
na previsão do tempo,
na construção do vento,
que não beira o horizonte,
mas é matéria e inconsciente,
ao mesmo tempo que fica acima
fica também abaixo da gente -
o temporal faz seu espaço.
tem, sim, uma nuvem
de chuva amarga molhando o piso
da gente seca;
deixando estrago
de quando em quando
sob mando de força divina
regando sempre 
os mesmos potes vazios,
semi-esquecidos,
furados, quadrados, abandonados,
que vocês têm guardados
aí dentro do peito.
viu, é mesmo sem tempo -
acorda, 
assopra,
que já tá chovendo bile 
e não dá mais 
pra esperar vento.




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

a ship

when we started to build a ship
I always thought about the sea
never about the ship
the whole ocean open wide
for you and me - and sky

when we started to build a ship

I painted it red and white and blue
maybe yellow too -
and I thought about us
holdin’ each other
over waves and sea storms

we can handle this, right?


when our ship was almost done

I felt happy as I could be
- now we could face the sea - said I
but there were waves and storms
scary as shit, and we hit - you agreed

then we got into the sea

wondering we were finally free
there were no roads, no maps
no fences nor signs -
but
someway 
I felt weird -
from somewhere in my head
came to me this little notion
that we're still chained
now by the ocean
can you see?

yes, robert

sometimes
the guilty undertaker sighs
and that's all.
there's nothin' to do about it
there's no sense of time anymore
or feel
or will
it's too damn late - 
the truth is I've got nothing but these undertakers sighs
and
honestly, I fake I don't care
cause I can't really listen to it,
but
these guys
who are used to deal with dead people
I can't trust them 
- too much silence -
they fuckin' know how to deal with silence
did you realize that?
may that's why I can't deal with them
I can't deal with silence either way
I think its fake. bullshit.
but sometimes
the guilty undertaker sighs
and that's all.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O cheiro

Já fazia uns trinta minutos que eu estava atrás daquele caminhão de galinhas. Nenhum ponto de ultrapassagem, um porre de um engarrafamento intenso e uma estrada nada amigável no interior da província. O cheiro de merda era terrível. Esse cheiro é facilmente identificável pra quem nasceu no interior, a gente aprende desde cedo distinguir a espécie do bicho pelo cheiro da merda. Passado alguns minutos da jornada, tenho que admitir que, de certa forma, o cheiro foi amenizando e já não era tão forte. Talvez num movimento natural eu tivesse me habituado, não sei. De qualquer maneira, minha prioridade era o tempo, a urgência dos segundos em cada quilômetro rodado. Aonde quer que eu vá, eu quero chegar logo. E tão logo o cheiro tinha sumido, decidi assumir alguns riscos e forçar a ultrapassagem. Eu não queria me habituar àquilo e sabia que o risco era a única solução possível ali. Há os que nunca ultrapassam.

Ultrapassei em faixa dupla perto de uma ponte, um por um dos habituados - até o derradeiro caminhão ter virado imagem no retrovisor do meu carro popular. Já livre do cheiro insuportável, pensei na rotina do motorista do caminhão, no seu cotidiano e sua relação com o cheiro da merda, se ele realmente sentia aquilo o dia inteiro, se de alguma forma isso ainda o incomodava ou qual teria sido o processo físico de adaptação pelo qual ele supostamente teria passado. Quando passei, ele buzinou duas vezes - como se me cumprimentasse.

De boné azul, parecia um poeta.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

solidarité

a Nigéria chora
e eu acho que o Haiti também.
indignada, a sociedade toma as ruas
em prol da liberdade de expressão -
pelo menos,
é o que diz na televisão daqui -
há a indignação dos filósofos
das redes sociais
e de todos os jornalistas
no México e no Brasil.
já sobre a Namíbia,
eu nada sei, mas
deve haver comoção por lá
porque todo mundo se mobiliza rápido
quando o atentado
é europeu -

o atrasado
sou eu.


sexta-feira, 14 de março de 2014

das greves


outra greve estourou 
em uma grande capital do país
tenho pressa em declarar meu
apoio ao trabalhador:
se não pela causa, pela dor, 
que nossa identificação se dá no braço,
no cansaço
de ter um peito oprimido
por uma força superior
que não cogita negociar
nem fazer concessão -
sim, é ruim, mas 
de ameaça em ameaça,
eu sigo assim:
meu coração funcionário
de um patrão imaginário
me faz minoria
dentro de mim

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

41.2

tem vezes que tem sono,
noutras não;
tenho reparado que
toda noite repete as mesmas coisas
tão logo que a luz apaga:
deita, rola, coça, levanta, bebe, deita
- inúmeras vezes -
também, quando a luz apaga,
prontamente ele acende de novo
pr'a depois voltar a apagá-la 
outra vez.
eu acho que o homem
não faz isso pela luz em si,
mas pelo movimento.
pelo momento em que
resolve escrever um parágrafo
sem saber se por ansiedade
ou resistência

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

só isso

tem dias que me sinto só
independente da quantidade de gente 
que está ao meu lado ou meu redor.
simplesmente acordo assim:
desinteressado do mundo,
n'um estado profundo 
de abnegação - 
é engraçado porque quanto mais só me sinto,
mais tenho a impressão de que há uma multidão 
de gente sentindo a mesma coisa. ou seja,
talvez não estejamos realmente sós, mas sim
- só - distantes uns dos outros.
e é nesse instante que sinto
que devo sentar e escrever isso:

um manifesto discreto
entre o silêncio
e o grito

terça-feira, 9 de julho de 2013

the lonesome prayer




minha canção chamada "the lonesome prayer" (acima), composta por mim e produzida pelo meu amigo Daniel Téo, foi selecionada como semifinalista na categoria folk/singer-songwriter do Unsigned Only. É o segundo ano do Unsigned, concurso criado pra lançar novos talentos da cena independente americana. Segundo a assessoria do concurso, foram mais de 9000 inscrições vindas de mais de 100 diferentes países ao redor do globo. O legal dessa brincadeira é que o corpo de jurados é formado por Iggy Pop, Chrissie Hynde, Robert Smith e mais uma caralhada de gente foda, tendo como mentores a RCA, Capitol, a revista Spin e uma turma da pesada lá de cima (veja aqui: http://www.unsignedonly.com/judges). Fui o único brasileiro semifinalista na categoria folk e fiquei super feliz pela indicação. 

(ps: os finalistas foram anunciados no final do mês de julho, não rolou pra mim, mas já valeu a brincadeira) dale!



quinta-feira, 20 de junho de 2013

meu amigo Belchior

talvez eu dê o fora,
talvez eu vá embora,
deixe meu carro n’um estacionamento qualquer
e vá percorrer os submundos do continente;
tenho escutado teus discos e gostaria de lhe dizer, amigo:
eu também tenho medo. o tempo também mexe comigo.
pensando, suponho que você não dorme a noite,
que fuma incontáveis cigarros em surtos de ansiedade -
o que deve deixar o ambiente terrivelmente pesado
para um poeta fugitivo. 
eu já não fumo mais, Belchior. 
tenho agüentado no peito a escuridão da madrugada, 
ventiladores, passos pesados, a sinfonia de automóveis cansados,  
o silêncio...
acho que o silêncio é uma grande mentira, e
só tenho esperança no cheiro da pele de quem amo.  
ela tem cheiro de primavera, Belchior,
um sorriso no olhos que você nem imagina.
e eu...bem, eu sinto que você está fugindo, mas
ninguém foge do tempo, Belchior.
ninguém.

terça-feira, 28 de maio de 2013

quarta-feira, 15 de maio de 2013

quarta-feira, 24 de abril de 2013

telespectador

uma rebelião
no canal cinco:
dois jovens mortos
e um apresentador urrando coisas
sobre vagabundos irrecuperáveis -
ele grita alto,
mesmo no microfone.
parece estar bem alimentado,
gordo de ódio,
aponta o dedo para 
a câmera - um imperador
de merda nenhuma
cuspindo certezas,
clamando punições,
acompanhado por um sorriso sujo
no canto da boca úmida.
não sei, mas
tenho a impressão que 
ele é assistido por uma legião
de sádicos 
e que a desgraça alheia
conforta
esse porco

quinta-feira, 18 de abril de 2013

gracias

passei um tempo fora
andando sozinho
correndo o continente
procurando história,
gente -
sem titubear,
deixei tudo pra trás
tudo passar
e fui embora, passarinho.
eu não guardo mágoa
não guardo água
não guardo nada.
meu peito é um buraco
aberto. não tenho medo
de ser ridículo.
o que me amedronta
- mesmo -
é nunca sê-lo.
me abraço no tempo
não faço projeção,
mas isso foi ontem.
depois que você apareceu
tudo me pareceu tão
desimportante...
sabe, tenho a impressão
que te amo faz tempo -
antes mesmo
de saber
que você existia.





quarta-feira, 13 de março de 2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

é

é com esse abridor de lata
que faço um furo no peito
e jogo no teu colo 
um pedaço de músculo torto.
como quem diz: segura,
fica com isso outra vez,
aguenta.
se estiver muito pesado,
pode deixar encostado
na porta da cozinha
onde sua família passa
quase todo dia. e
se aquele cão imenso
resolver usar como brinquedo,
também não tem problema.
divirtam-se as pulgas.
oco, 
decido ficar em casa por um tempo, 
faltou luz e vou esperar a chuva terminar
pra ver se alguém aparece
com uma lâmpada mágica ou algo parecido.
se isso acontecer, quando acontecer,
mesmo salvo e agradecido,
torço para que essa pessoa
não tenha o hábito
de me cobrar responsabilidades

estou cheio de coisas
menos importantes
pra fazer

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

quase meia noite

quem dera eu fosse adepto
de alguma seita americana
que confortasse a alma
usando como simbologia
o poder da mãe natureza,
o campo magnético da terra
ou coisassim.
não dá.
nunca deu. 
chego a temer que,
quando você morrer,
terei que procurar respostas
nos livros do espiritismo
ou procurar justificar meu ceticismo
em uma dúzia de filmes bundões
dos anos 70,
ou n'algum filósofo alemão,
ou me empanturrar de informação
sobre a temperatura correta
do cozimento da carne,
sobre a vida de um besouro
e suas especificidades...
não sei o que é pior.
então, terminemos com isso:
vou arriscar o comentário de sempre
sobre a desilusão com a política nacional,
compartilhar a pauta sensacionalista
de algum programa de TV

resolver encarar o domingo.
mais um.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

o mundo não acabou, brasil


deu.
não vou procurar
a estética da separação ou
o soneto da lamentação.
não, não vou.
não preciso do consolo
de uma dúzia de poetas atrasados
que nos foram empurrados
em alguma aula de literatura.
os discos do Vinicius... pode ficar,
tô cansado desses caras. 
o que vou deixar
é meu orgulho de lado,
embrulhado 
n'um jornal de ontem,
enquanto meu estômago
sangra de dor e seca ao sol
de outro verão brasileiro.
janeiro...
vai, encara a noite,
perde o sono
quantas vezes for preciso,
aguenta o teu juízo 
que ele é teu
- de mais ninguém.
tem outra coisa:
quando eu levantar,
quando erguer a cabeça
pra tirar esse balão do peito,
não vai ter mais jeito.
vou voltar a viver só,
lembrar do seu sorriso
com o devido carinho
- sozinho -
e você pode fingir, acreditar, 
até se identificar
com velhos sambas babacas
sobre as ilusões e tristezas
dos outros.
eu não. agora vai ser assim:
porque o que eu não agüento
- o que eu não agüento mesmo -
é precisar ouvir de alguém
o que eu posso falar 
por mim.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

o rapaz


acordou cedo
n’um quarto de hotel
de algum lugar do mundo -
tomou banho,
escovou os dentes,
cuspiu na pia
a noite anterior,
coisa que fazia
religiosamente -
repetia
os movimentos de sempre:
mesmos horários,
dias diferentes –
foi quando de repente
alguma coisa aconteceu
n'uma questão de segundo,
um movimento milimétrico do olho
que o levou até aquele cabelo branco,
um fio só -
em seguida, como n'um plano sequência,
veio a barba enviesada, 
paredes, chão...
enfim, o absurdo.
percebeu que não tinha nada
além de dois buracos
embaixo dos olhos
e
voltou a dormir

domingo, 28 de outubro de 2012

chuveiro


eu não achava
que éramos tão diferentes
até você afirmar
com assustadora veemência
o que, provavelmente,
estava entalado aí dentro
há muito muito tempo.
talvez o nosso amor
tenha virado conveniência
ou você está mudando,
ficando velha,
buscando a falsa segurança
da vida burocrata:
dois cães,
três filhos,
fila do banco,
almoço de domingo -
eu discordo, mas considero justo.
você deve ter o direito
de amar o que quiser
o direito
de amar você mesma
a ponto de esperar de alguém
um futuro que planejou sozinha.
não julgo.
enquanto isso,
o tempo escorre pelo ralo
como a água do chuveiro
onde tomávamos banho
juntos

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

senhor,

você nunca me disse nada,
não revelou nenhum segredo, e olha
que eu fui atrás. li no seu livro que
somos todos irmãos -
então, se somos todos irmãos,
ora, sou seu filho também!
por acaso sou tão bastardo
que não mereço um conselho?
um conselho gratuito,
sem ter de perguntar antes?
simplesmente acordar e ouvir:
faça assim, faça assado?
pode economizar nas harpas,
deixe os anjos onde estão,
eu reivindico uma iluminação
aleatória. só uma,
esquece o fundo musical.
meu esperado momento espiritual
pode ser na cozinha, no banheiro,
pode ser em qualquer horário. até
aceito como presente de aniversário,
não me incomodo.
o que me incomoda de verdade
é ouvir de tanta gente
- sem distinção de idade -
que ouve tudo o que você diz
sobre a morte, a felicidade,
ou como agir nessa ou naquela
situação. só eu que não.
bom, das duas, uma:
ou estão mentindo por aí
- e pecando -
ou eu não estou ouvindo,
o que me parece um absurdo,
já que não sou surdo, pois
acabei de voltar
de um concerto
de jazz

terça-feira, 25 de setembro de 2012

ei, foca (dá tempo)

olha aqui
eu quase existo pra ti
eu quase existi.
nos perdemos -
se bem me lembro -
nas velhas formalidades
que acabam separando
pessoas como nós.
mas dessa vez não, viu?
não.
meu conformismo
segue esbarrando
no traço do desenho
do teu olho -
essa analogia batida que
confesso: não sei explicar.
ainda,
como se não bastasse,
me vem isso aqui
sete dúzias de palavras
traduzidas ao contrário
como uma obrigação
orgânica, quase estomacal.
mocidade, quiçá?
sei lá, ando assim,
não fica assustada.
eu não consigo mentir
pra mim. não mais.
por nada.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

#27


eu não disse
que era calmo ou
controlado -
isso é balela,
não falo de mim.
me questionava sobre
como é presunçosa
a constante auto-análise
que as pessoas fazem
de si mesmas -
essas pequenas mentiras
que nunca esconderam
a insegurança de ninguém.
ok, cansei. eu admito:
era isso que eu pensava,
calado -
enquanto seus lábios
se moviam sem parar

domingo, 9 de setembro de 2012

o tímido (falando sozinho)

hã, assim,
não sei bem, mas
sinto que alguém
pensa igual a mim 
em silêncio

sábado, 30 de junho de 2012

esse cara

quando fica só
encontra alguém
calado, parecido com ele,
cansado e resignado,
orgulhoso do vazio
de uma alma amarela.
pensa que engana, mas
não, n'um sorriso falso
denuncia a mentira
de uma alegria forçada
que ninguém vê
que ninguém viu -
mas é sorriso
diria o narciso
é, pode até ser
ou um gesto mecânico
inconsciente
fingindo segurança,
coitado -
está sozinho
não são duas pessoas

terça-feira, 12 de junho de 2012

não tem sentido

era o que estava escrito
no título do texto.
isso não impedia
de fazer você procurar
uma associação simbólica,
a tal justificativa razoável
para sua interpretação. 
porque você tem fome, 
e quem tem fome, come.
- precisa -
há uma necessidade aí:
orgânica, física.
a mesa não serve a dúvida
- enjoativa -
serve a certeza.
e você se lambusa,
se sacia, mesmo que fria.
há uma necessidade aí -

parabéns 
por não perder
a inocência

quinta-feira, 31 de maio de 2012

essa correria aí, rapaz

onde você vai
com essa agonia, rapaz?
chutando pedra na rua
suando além da conta -
tira a mão do bolso e
sorria, rapaz.
mesmo forçadamente
mesmo descontente
devolve a pedra na história
que você não é obrigado
a carregar 500 anos nas costas -
acorda, rapaz, olha em volta.
toda essa gente correndo,
trotando, buzinando, movendo,
eles vão chegar também, rapaz,
no mesmo lugar que você
lá, onde tudo vai ficar calmo
dentro de outras
pequenas repetições
convenientes

terça-feira, 29 de maio de 2012

Uma senhora e três comícios no seu bairro

quão entristecida
fica a velha costureira
ao vê-los passar enfileirados
cada qual com seus tecidos
das mais variadas cores -
e brigam, berram asneiras,
homens tão diocesanos
não sabem que suas bandeiras
são feitas dos mesmos panos]
enquanto um grita: salve o prefeito!
outro suplica sua morte
um terceiro afirma ser deus
e não tem qualquer tipo de sorte;
ninguém escutava ninguém
era isso que afligia a costureira
pois gritavam de uma maneira
que não se entendia um vintém
do que eles queriam dizer
ou que queriam falar.
talvez, minha senhora,
eles não queiram dizer nada
só gritar um pouco
um mais alto
que o outro

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Caiu Fernando Abreu

eu queria escrever um soneto
sobre o amor e suas trivialidades banais.
um soneto de verdade, estruturado,
tal qual Vinicius de Moraes, mas meu.
ou quem sabe um texto em prosa
igual ao Caio Fernando Abreu?
algo visceral e adolescente,
um pouco inseguro,
outro tanto emergente,
que console todos os leitores do mundo
que não falam e não escrevem.
só leem.
o problema é que eu não sei nada sobre um soneto,
nada sobre o amor e suas trivialidades,
e confesso: cansei do Caio Fernando Abreu.
portanto, o uso da linguagem aqui
é uma coisa minha, sem nome,
que eu fiz pra você, que só lê.
você, o leitor,
um refém enclausurado
nas palavras
de um autor.