domingo, 17 de julho de 2011

Funeral

eu morri
quando você me colocou
naquela sacola plástica
talvez acreditando ingenuamente
que eu ficaria lá pra sempre -
afinal, eu já estava preso
dentro de alguma coisa
que demoraria a decompor.
lembro de você parecer
gostar daquela situação:
ria e ria
enquanto eu
morria
suponho que você não pensou
que eu fosse morrer mas, de fato, morri.
o pior: nem te vi
lembrar dos nossos corpos nus
ao ver as sacolas intactas
e saber que fui eu
só eu
quem decompus.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

uma coisa meio Odair José

se você for suplicar
pela minha indiferença,
eu negarei, amor.
pois, seja como for,
aceito qualquer dor
mudo casa, mudo cor,
compro carro, viro ator.
canto até um samba assim
de uma nota, um samba só,
sem qualquer preocupação,
sem nenhuma afinação
que nesse nó
que me encontrei
onde até samba eu já cantei, eu ainda
nem bebi, nem bebi.
- uma dose, por favor.
dupla, se puder, garçom, e
o cinzeiro de antemão.
pois, veja, eu já me submeti
dei o que pude dar e vi
que não é do meu feitio
desse peito arredio
tanta bala de festim

pra encerrar:
eu aceito até o fim,
mas se você pedir pra mim
a indiferença. sim,
eu negarei, amor

terça-feira, 12 de julho de 2011

Indiana Jones

o harrison ford envelheceu
ele parece ridículo no meio
dessas novas tecnologias
cinematográficas computadorizadas
o chapéu ainda é o mesmo
o sorriso mais amarelado
também acho estranho
a iluminação, essa coisa toda
até a música tema parece ter perdido o sentido
ou não
ou é a minha barba que está crescendo
e não estou sabendo lidar com isso

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O canário burro

aquele canário
que cantava preso
sempre me pareceu
um pássaro idiota
se fosse eu 
ficaria calado
nem alpiste
mas nem obrigado
me fariam cantar
daquele jeito
só que pensando agora
não sei muito bem
se o canário era o esperto
e o idiota era...quem?

Pedro Vermelho

quando você joga o amendoim
eu pulo não por instinto
finjo aquela reação física
uma careta, duas piruetas
para estabelecer uma relação de troca
entre nossas espécies - diga-se de passagem - 
aprendi isso com um chimpanzé velhaco
tatuado, que morava na jaula ao lado, fumava e tudo.
quando bebia, urrava a noite toda,
batia nas grades, talvez não conformado
pela situação que se encontrava.
eu estava confortável no manejo
que era submetido por alguns amendoins
e só queria dizer, na minha condição de macaco e se caso eu escrevesse,
que acho que nós somos iguais,
iguaizinhos,
nos amedoins
e nas piruetas

sexta-feira, 8 de julho de 2011

saudade

-->
uma porta aberta
do meu olho-gaiola
que deixou escapar
mais de 10 passarinhos

quinta-feira, 7 de julho de 2011

descaso

não sei o nome dele
vi que tinha pouca roupa
fazia frio, muito frio e
todos estavam indiferentes.
foi quando me distraí
e resolvi olhar pro lado:
tô até agora intrigado
com a coragem daquele homem
que atravessou a avenida
sem olhar pro lado

ele nem titubeou

quarta-feira, 6 de julho de 2011

o galizé

toda vez que o galizé
resolvia comer grão de bico
jurava ser um pavão
abanava o rabo, convicto
da beleza das penas que tinha.
não era do feitio do galizé
utilizar a substância proibida -
o grão de bico era proibido.
e assim começamos
a não-fábula que se desbobra:
claro que, independente do meio da história,
o óbvio aconteceu: armou-se a confusão no galinheiro.
o galizé, entupido de grão de bico,
achou que fosse pavão e abriu seu rabo,
altivo, displicente...jovem.
a turma assistiu o espetáculo
os gansos acabaram rindo
as pombas foram indiferentes
os galos nem se mexeram
para assistir o show do galináceo.
eles sabiam a verdade, até ele sabia
que não era aquilo, dava pra ver no olhar frustrado
pela cara do coitado, um galizé amargurado
que fingia muito mal ser um pavão

terça-feira, 5 de julho de 2011

#15

se eu soubesse desenhar
- e não escrever -
desenharia sua boca triste
e meus dois indicadores
calmamente tocando
a pele das suas bochechas
tentando forjar em você
um sorriso forçado, esbulhado,
pois só seu desenho do rosto
quando posto sorrindo
parece um empurrãozinho
no mundo

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Tião Carreiro

ouvi uma moda de viola
de tião carreiro e pardinho
falava sobre a despedida
sobre seguir viagem chorando
e sobre a dúvida em saber se
quem ficava
também chorava - o que é justo -
ele dizia que faria um corte no peito
que se tivesse um lugar no mundo
que ninguém tivesse pisado
era lá, justamente lá, que ele iria ficar.
fiquei pensando sobre a dor dele:
no mínimo,
meia garrafa

sábado, 2 de julho de 2011

prometi pra mim que

iria te ajudar
e não consegui.
acabei me afetando
com toda a negatividade
que lhe é costumeira
por prazer ou desconhecimento.
o fato é que também me perdi.
eu sei que é difícil, tenho meus fantasmas
meus cavalos, 13 rinocerontes,
mais ou menos duas dúzias deles no peito,
mas tento deixar a porta aberta -
não é sempre que consigo -
tenho também uma calça velha 
de veludo, que vem até o umbigo:
é lá onde costumo guardar as pedras
que você jogou em mim:
- todas no bolso de trás,
que acabou furando
com o tempo