sexta-feira, 28 de outubro de 2011

um mudo (na rodoviária)

você não sabe como é
não poder falar
o que eu realmente
sentia sobre ela.
mesmo com alguns olhares,
certos gestos óbvios,
tentativas fisionômicas,
mas como se não bastasse
tinha outro problema sério:
o som que eu emitia e emito
- uma espécie de buzina -
é muito inconveniente -
me faz parecer um retardado.
não. eu preferia ficar calado.
cantar? imagine. nunca cantei.
digo, nunca cantei como se canta,
mas tenho lábios vivos
e sempre o fiz mentalmente -
era lá dentro que eu tinha guardado
todas as melodias que me apunhalavam
de uma forma ou outra.
e confesso: fiz todo tipo de reza,
queria articular uma palavra que fosse:
- bobóla -
- cccrroo -
- meeeerrrda -
não dava. nunca deu.
eu pedi, pedi mesmo:
terreiro, centro espírita,
igreja, qualquer que fosse
o deus - não me importava.
só queria uma palavra. uma.
bom, o final da história:
encontrei conforto no silêncio
também já sonhei que falava
- se esse fosse o caso -
tinha voz altiva e tudo.
o fato é que continuo mudo
e acho que era deus
aquele gurizinho
que me deu essa caneta
5 minutos atrás

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tradução da transcrição do discurso de agradecimento de Leonard Cohen no recebimento do prêmio de honra pela sua contribuição literária, prêmio príncipe de astúrias.


Bom, acabei de ouvir o discurso de agradecimento do grande Leonard Cohen. Tudo que sai da boca do Leonard Cohen me toca de alguma forma e senti a obrigação de traduzi-lo para o português, assim o fiz, descompromissadamente. Isso é uma aula, lá vai:

É uma grande honra estar aqui em frente a todos vocês essa noite. Talvez, como o grande maestro, Riccardo Muti, eu não estou acostumado a ficar em frente a um público sem uma orquestra atrás de mim, mas vou fazer o meu melhor como um artista solo essa noite.

Eu fiquei acordado a noite de ontem me perguntando o que eu deveria dizer para essa assembléia. Depois de ter comido todas as barras de chocolate e os amendoins do minibar, Eu rabisquei algumas palavras. Eu não acho que tenho que usá-las. Obviamente, estou profundamente emocionado por ser reconhecido pela Fundação. Mas eu venho aqui essa noite para expressar outra dimensão de gratidão; Eu acho que posso fazer isso em três ou quatro minutos.

Quando eu estava em Los Angeles, sentia um tipo de mal-estar porque eu sempre via alguma ambiguidade em um prêmio para poesias. A poesia vem de um lugar que ninguém comanda, ninguém conquista. Então, senti algo como um charlatão em aceitar um prêmio por uma atividade que eu não comando. Em outras palavras, se eu soubesse de onde vinham as boas canções, teria ido mais pra esse local.

Eu fui obrigado no meio desse calvário em ir lá e pegar minha guitarra.
Eu tenho uma guitarra Conde, que foi feita na Espanha em um grande workshop realizado na rua Gravina, número 7. Eu peguei um instrumento que adquiri há 40 anos. Tirei ele do case, o levantei, e ele pareceu estar preenchido de gás hélio de tão leve.

E coloquei ele perto do meu rosto, e coloquei meu rosto perto da roseta lindamente desenhada e inalei a fragrância da madeira viva. Nós sabemos que aquela madeira nunca morre. Eu inalei a fragrância do cedro e era tão fresca quanto no primeiro dia que comprei o instrumento. E uma voz disse pra mim, "Você é um homem velho e você nunca disse obrigado, nunca trouxe sua gratidão de volta para o solo d'onde surgiu essa fragrância. E então, eu estou aqui hoje para agradecer ao solo e a alma dessa terra que me deu tanto.

Porque eu sei que uma carteira de identidade não é um homem, uma avaliação não é um país.

Agora, vocês já sabem da minha profunda associação e confraternização com o poeta Frederico Garcia Lorca. Eu poderia dizer que, quando eu era um jovem, um adolescente, e eu estava faminto por uma voz, estudei os poetas ingleses e conhecia suas obras muito bem, e eu copiei seus estilos, mas não encontrava uma voz. Foi só quando eu li, mesmo em uma tradução, os trabalhos de Lorca que eu entendi que aquela era a voz. Não é que eu tenha copiado a sua voz; eu não me arriscaria. Mas ele me deu a permissão de encontrar uma voz, de localizar uma voz, que é encontrar um eu, um eu que não é fixo, um eu que luta pela própria existência.

Enquanto fui crescendo, eu entendi as instruções vindas daquela voz. Quais eram as instruções? As instruções eram: nunca lamentar casualmente. E se eu tiver de expressar a grande derrota inevitável que espera por todos nós, que o faça dentro dos limites  da dignidade e da beleza.

E então, eu tinha uma voz, mas não tinha um instrumento. Não tinha uma canção.

Eu era um guitarrista desinteressado. Sabia alguns acordes. Sabia só alguns deles. Eu sentava com meus amigos de colégio, bebendo e cantando canções folks e também as canções mais populares do dia, mas eu nunca, nem em mil anos imaginei que me tornaria um músico ou um cantor.

Um dia, no começo dos anos 60, eu visitava minha mãe em Montreal. A casa dela era do lado de um parque e, nesse parque, tinha uma quadra de tênis onde a garotada costumava ir pra ver aqueles belos (belas) jogadores (as) de tênis se divertindo com seu esporte. Eu vaguei de volta pelo parque que conhecia desde a infância e lá tinha um jovem tocando uma guitarra. Ele estava tocando uma guitarra flamenca e tinha uns dois ou três garotos ao redor do homem. Eu amei a maneira como ele tocou. Tinha uma coisa na forma de como ele tocava que me pegou. Era a maneira que eu queria tocar e sabia que nunca seria hábil para tal.

E, eu sentei lá com os outros que o escutavam por alguns momentos, e quando teve um silêncio, um silêncio apropriado, eu perguntei pra ele se ele poderia me ensinar a tocar. Ele era um jovem espanhol, e nós só podíamos nos comunicar no meu Françês quebrado e no Francês quebrado dele. Ele não falava inglês. E concordou em ensinar-me algumas lições de guitarra. Eu apontei para a casa da minha mãe, que poderia ser vista da quadra de tênis, e fizemos um acordo, ele definiu um preço.

Apareceu na casa de minha mãe no dia seguinte e disse, "Deixe-me ouvir você tocar algo." Eu tentei tocar alguma coisa e ele disse, "Você não sabe tocar, não é?"

Eu disse, "Não, eu não sei como tocar." Ele disse "Primeiro de tudo, deixe-me afinar sua guitarra. Está desafinada." Então, ele pegou a guitarra e afinou-a. Ele disse: "Não é uma guitarra ruim." Não era a Conde, mas a guitarra não era mesmo ruim. Então, ele devolveu ela pra mim e disse: "Agora toca".

Eu não podia tocar melhor que aquilo.

Ele disse "Deixe-me lhe mostrar alguns acordes." E ele pegou a guitarra e tirou um som daquela guitarra que eu nunca tinha ouvido. Tocou uma sequência de acordes com um trêmolo, e dizia, " Deixe-me pôr seus dedos nos trastes," e colocava meus dedos nos trastes. E dizia: "Agora, agora toca."

Foi um desastre. Ele disse, "Eu volto amanhã."

Ele voltou no dia seguinte, colocou minhas mãos na guitarra, colocou ela em meu colo da maneira que era apropriada, e comecei outra vez com aqueles seis acordes - uma progressão de seis acordes. Muitas, muitas músicas flamencas são baseadas nelas.

Eu estava um pouco melhor naquele dia. No terceiro dia - tinha melhorado, de alguma forma tinha melhorado. Eu sabia os acordes agora. E, eu sabia que mesmo que eu não coordenasse meus dedos com meu dedão para produzir aquele padrão correto do trêmolo, eu sabia os acordes, e sabia eles muito, muito bem.

No outro dia, ele não veio. Ele não veio. Eu tinha o número da sua, da sua casa em Montreal. Telefonei para descobrir o motivo da sua ausência, e alguém me disse que ele tinha se matado. Que ele tinha cometido suicídio.

Eu não sabia nada sobre aquele homem. Eu não sabia de que parte da Espanha ele tinha vindo. Eu não sabia por que ele veio até Montreal. Eu não sabia por qual motivo ele tocava lá. Eu não imaginava qual a razão dele aparecer lá naquela quadra de tênis. Eu não sabia porque ele tirou sua própria vida.

Eu fiquei extremamente triste, claro. Mas agora eu digo uma coisa que nunca disse em público. Foram aqueles seis acordes, foi aquele padrão de guitarra que foi a base de todas as minhas canções e minhas músicas. Então, agora eu começo a entender a dimensão da gratidão que tenho por esse país.

Tudo que vocês encontraram de bom no meu trabalho veio desse lugar. Tudo, tudo que vocês encontraram no meu trabalho de bom, nas minhas canções e na minha poesia foi inspirado por esse solo.

Então, eu agradeço muito pela calorosa hospitalidade que vocês sempre demonstraram pelo meu trabalho. Ele é realmente de vocês, e vocês me permitiram agora poder afixar minha assinatura no canto da página.




escutai!

tsicatsica
vruuuum
groooom
piu-piu-piu
fiufiufiufifiufiu
graagraaagraa
toftoftof
pinpinpinpin
tchiutchiutchiu
toftoftoftof
vrrrrruum
broooommm
bipbipbipbip
dlindlon
paft
toctoctoctoctoc
grrrrrruuuuuuu
auauauauAUAU
pim
pum
pom
titititititititi
ei
frrrrrrrrrrrrrr
tintintintintin
tsica
grrroooou
braaaaarrrr
bipbip
huuuuuu
pofpofpof
shuuuu
tziiiiiiiiiiiiiiiiiin
rafffffff raffffff
iuiuiuiuiuiu
triimmtriiiimmm
...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

(tinha um passarinho, Sr. Drummond)

No meio do caminho tinha um pássaro
tinha um pássaro no meio do caminho
morto
no meio do caminho tinha um passarinho.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha um passarinho
tinha um pássaro morto no meio do caminho
no meio do caminho tinha um passarinho.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

é uma guerra

eu tenho uma trincheira
logo abaixo dos olhos
que abriga dois soldados:
um laranja, outro branco;
pra ser franco,
acho que são três.
o terceiro, parece que chamam Cortês,
mais velho e barrigudo,
adquiriu o respeito dos outros por
imposição cronológica
- a hierarquia da lógica -
o segundo, chamam de Burro,
ele vive chutando a parte inferior do
meu olho esquerdo e urra de quando em quando
- como fazem os burros -
o primeiro, chamam de Ernesto, o laranja.
um anti-funcional.
não pega em arma
não dá tiro nenhum
e fica escondido no abrigo
dos feridos. não gosta
de guerra, mas foi escalado
e teve de vir.

ok, Ernesto, foge da trincheira,
você é o menos funesto
dos três, pode ir. 
- ou deu de tremedeira
que eu preciso dormir.

Escurinho (1950 - 2011)

Leadbelly

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Jeff Tweedy

a velha geração V (da TV a cabo) está morrendo

um filho (45 anos) e um pai (mais ou menos 74)
sentados no sofá da sala.
na televisão, um programa americano, dublado -
algo do tipo "monstros do rio" ou coisa assim.
basicamente: um cidadão de meia idade
trava batalhas memoráveis contra peixes raros e gigantes,
obviamente nos lugares mais exóticos do planeta.
pensei nos mosquitos, na produção do programa,
nas horas de paciência pra'queles 25 segundos
de filme. mais tarde, pensei no pai, no filho, no sofá,
na maneira peculiar que eles encontraram
de gastar o tempo. também em como tudo pode ficar pior
e a vida passar pra eles... espero que não morram
no intervalo do programa.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tião Carreiro

lord, what did you feel?

I never drew
now I'm drawing
and I never slept
- well, still not sleeping -
I never sang
now I'm singing
so, I've been wondering
if maybe the next thing
I'll have to do is you 
and
then like a god
take a nap after all

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

eu realmente não tenho um título, mas...

olha lá fora
alguém passou cantando
ou foi um assovio?
talvez seja um rio...
daqui, a rua continua nua,
pisada, cuspida, mal tratada,
enquanto a janela - sempre ela -
costuma ser iluminada
- quando não fechada 
por alguém.
a rua não:
a rua é minha
é tua
não é como a outra,
que é dela, tal qual a
a porta e a cortina também.
a rua é nossa, é fossa, é armazém -
um dia ainda brado que
a rua é o único ambiente democrático.
e depois de tudo, eu sento e penso
qual idiossincrasia do tempo
me fez ligar pra rua
n'uma noite dessas.

vai ver
é culpa de quem passou cantando
ou assoviando
ou do rio.

a praça

um escorregador
vermelho e verde,
duas gangorras amarelas,
três balanços coloridos,
nenhuma criança.
a grama é rala, meia boca.
no chão, sete homens dormem.
não sei se são realmente homens,
coisas, troços ou destroços -
o fato é que dormem;
uma da tarde,
o povo passa correndo
até entendo
todo mundo
tem um filho
pra criar, mas
tem uma coisa
que me deixa intrigado, 
a ver:
que sonham esses renegados
que até dormindo
são condicionados
a sofrer?

José Rico

Willie Dixon

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Muddy Waters

3:45 a.m

estou aqui 
o que devo fazer?
terminar o que fumo
procurar outro rumo
ou simplesmente
ficar deitado
rindo
da vida protocolar
que vou ter
de levar quando acordar?
ainda estou aqui
estático
errático, talvez -
quem eu pareço?
qual é o endereço?
um cansado confesso
do cumprimento
automático,
do sorriso maquinal,
ademais -
que andar estamos?
décimo quarto?
está um pouco alto
o que devo fazer?
procurar outro rumo
terminar o que fumo
ou simplesmente
ficar deitado
rindo
da vida protocolar
que vou ter
de levar quando acordar?

aliás -
você
faz o quê?

sábado, 8 de outubro de 2011

deus (Bar Abbas)

ando meio chateado,
gastando meu tempo
no teu livro sagrado,
lendo a história
de um homem bom,
filho de carpinteiro,
que foi julgado,
maltratado, até trocado
por um assassino chamado 
Barrabás...Bar-ra-bás!
como se isso não bastasse,
faziam-no carregar:
- uma coroa de espinhos,
- uma cruz - pesadíssima -  
e dizem que aguentava chibatada
como um burro de carga - em silêncio -
enquanto o povo gritava e cuspia...
sim, foi pregado na madeira
sob um sol escaldante
- esse mesmo sol aí -
que bate na janela
de todo mundo
sem pedir permissão.
verão - não sei,
prefiro o inverno
que por um F
não vira outra coisa.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

o silêncio como direito de um morto

fala baixo,
isso é um hospital.
aqui cada grito ouvido
é sinal de tiro certeiro
- mais um -  
acenava o enfermeiro 
(para a alegria do coveiro)
mais um filho doente
uma mãe, um pai solteiro,
quem fosse, foi-se.
viu, fala baixo, 
tem alma pedindo silêncio
pelo menos na hora de'ir embora,
ela ainda vai ter de aguentar
toda a choradeira familiar -
aquela barulheira triste
da comovente ritualização -
então, vê se não fala,
- também não chora -
que o silêncio
deveria ser direito
pelo menos agora