quarta-feira, 30 de novembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

eles

eu não sou eu -
não,
eu sou vários:
quinhentos,
uma tropa,
um batalhão!
imagine a confusão:
quando o primeiro quer algo,
o segundo diz: - não!
e quando o segundo quer pra si
alguma coisa (qualquer que seja)
vem logo um terceiro pra inibir.
assim - nós - caminhamos
lenta e sucessivamente,
sem nenhum comando,
nenhum maldito general.
eu, perdão -
não eu - um deles,
tento puxar a frente
organizo movimento
não chego a fazer vento -
bem, é um tento - disse eu,
perdão - não eu, nem esse outro,
é um quinto que chegou dando pitaco
como se fosse o dono do mundo.
eu, perdão - não eu, nem os outros - o sexto,
procuro alguma organização
nessa torre de babel
de nome singular:
sim,
escrevo tudo no papel
antes do sétimo
atrapalhar.

a morte de Terezinha

a primeira me chegou
como quem quer só brincar
trouxe um vestidinho curto
e algo horrível de tomar
eu não sei o que ela tinha
e perdido em sua beleza,
fui pego quase fugindo
na destreza de princesa.
hoje, abraça outro homem,
espero ser feliz, então.
eu ainda corro um pouco
e, apressado, eu fui - que bom.

a segunda me chegou
como quem nem quer chegar:
carregava uma doçura
uma leveza no olhar.
me mostrou ingenuidade
travestida de rainha
fiquei logo apaixonado
nem durou uma só linha.
hoje, escrevo ressabiado,
perguntando: por que não?
tão criança, a coitadinha,
e apressado eu fui - foi bom.

a terceira me chegou
como quem chega do nada:
foi n'a escurdião danada,
na fumaça de um bistrô.
eu confesso a embriaguez,
mas tem coisa que é assim.
e fingi uma sobriedade
que eu nunca tive em mim.
me pegou tão desarmado
nem sei mais o que é razão
e assim, contrariado,
fui copiar outra canção.

sábado, 26 de novembro de 2011

Da tragédia

não é uma skordalia
que vai me obrigar
implantar aqui um conflito - 
não sob o meu comando.
no linguajar popular:
- cago e ando 
pro ditirambo e
suas origens milenares,
eu quero a concisão
- em pares -
que tenho a impressão
agora - enquanto fumo -
que a nossa geração,
nesse fortuito momento
- um milésimo de segundo -
implora - ávida - por um resumo,
uma compilação;
eu sei o motivo -
falta tempo
e você anda tão cansado
ocupado
não é não?

um pardal desconfiado e um bem-te-vi que bebe uísque com leite todas as manhãs


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

a gratidão de um movimento

eu vou aproveitar
esse sentimento calhorda
de rejeição
não pr'a escrever uma canção
- poupemos o violão -
eu quero usar
esses minutos que restam
p'ra tentar forjar alguma coisa
que tenha uma continuidade
um fim, um meio, sabe?
que seja pelo menos produtivo
um parágrafo, um motivo - já sei!
um conflito - preciso de um conflito -
...
ok, não tenho.
perdi outra vez,
mas agradeço:
- obrigado,
odeio ficar parado.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

você

(de tão linda)
me faz parecer
um empalhador
de palavra
um taxidermista
n'uma funcão
que não é a minha -
cimentar significado
que você tem
hein?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

uma parábola.zip

abriu
um novo documento
pensando: vai dar! 
fechou e
- esqueceu -
de salvar

sábado, 5 de novembro de 2011

Jamé

o que eu escrevi pra você
ninguém nunca vai ver
chame de insensatez -
ou o que vier à mente
a suposta timidez
alegada por mim 
descaradamente -
é que o que escrevi pra você
ninguém nunca vai ler
mesmo
nem ao menos chegar perto
do pedaço de papel
rabiscado a granel
e...
tá, chega. dói.
eu nunca escrevi nada
sou péssimo com isso
só invento,
na verdade: sou lixo

o dia em que fernandinho beira mar chorou

fernandinho beira mar
chora sozinho.
seu filho Louro,
marcelinho niterói,
acabou ferido e morreu
n'uma operação
da polícia carioca.
pro jornal:
notícia
pro leitor:
conforto
pra mãe:
filho morto
- tragédia -
o comércio fechou
a favela tá de luto
e eu escrevo pergutando
resoluto (inf. decidido)
se você acha que vale um puto
a lágrima
de um bandido?

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

a odisséia de um poeta que queria escrever um soneto, escreveu, mas deu tudo errado e ele morreu sem saber

imagine o trabalho
de um velho poeta
poeta de verdade
enterrado e tudo
contando sílabas
(obsoleto)
só porque queria
escrever um soneto
para uma determinada
dama;
provavelmente -
alguém com quem dividiu
a cama ou um drama ocasional,
dividiu uma trama -
imagine o trabalho
desse velho poeta
que contava sílabas
analisava métrica
tudo p'ra escrever
um maldito soneto.
sim,
havia a dama
que 
no fim  
acabou morrendo
uma semana depois
ele nem soube, coitado -
escreveu, postou e mandou
para o endereço anotado e enfim:
- a filha viu e jogou fora
achou que era um folheto
das casas bahia ou algo assim