09/12/2016

33.


todo dia
na mesma esquina
um índio descalço
vende barcos de papel

eu olho pra você
quase sensibilizado
com essa sua comoção
que dura mais ou menos
uns 4 segundos

saudade


foi embora só da minha casa

22/03/2016

tinha um leão

tinha um leão
quando eu liguei a televisão. 
a trilha crescia lentamente
enquanto o narrador detalhava
- em off -
a musculatura do felino e
o poder de ataque do animal:
de cara, p’ra mim,
o bicho parecia ruim
naquele contexto audiovisual.
caçada ou perseguição?
a presa que agonizava,
o sangue que dela jorrava,
o que fazia eu
que ainda não perguntava:
- fome ou raiva, leão?
foi quando, então,
a trilha parou.
o narrador ficou mudo.
e n'um momento divino
ou vespertino
a minha ficha caiu...
lá, no seus habitats,
ele são só bichos
estão grunhindo 
por natureza, viu?

17/03/2016

uma nuvem

tem uma nuvem 
que não parece estar vindo
nem tampouco parece ter ido.
quando ela aparece, sempre me parece
que ela sempre esteve aí
carregada, gestada e parida
na previsão do tempo,
na construção do vento,
nuvem que não beira o horizonte,
que é matéria e inconsciente,
e ao mesmo tempo que fica acima
fica também embaixo da gente -
o temporal faz seu espaço.

tem, sim, uma nuvem
de chuva amarga molhando o piso
de concreto.
ela aparece de quando em quando
deixando o mesmo estrago
sob mando de força divina
regando um pote vazio
quase esquecido,
furado, quadrado,
que você tem guardado
aí dentro do peito.

é sem tempo -
acorda, 
assopra,
já está chovendo bile 

tem uma nuvem por aí.